A REDENÇÃO DO TEMPO




por Delmo Fonseca|

Que é, pois, o tempo? Em suas Confissões, Agostinho afirmou: “Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei”. A partir dessa premissa agostiniana, presume-se que a abordagem sobre o tempo envolve uma. complexidade que desafia a razão. Ainda assim, por que precisamos compreender o tempo?

No salmo 90.12, Moisés clamou a Deus por esta compreensão: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.” Há uma correlação entre sabedoria e tempo, pois a prática do saber exige tempo. O salmista sabia que somente o Criador do tempo poderia nos ensinar a tirar o melhor proveito possível deste. Oxalá pudéssemos imitar Jonathan Edwards: “Resolvi nunca perder nenhum momento do meu tempo; mas, antes usá-lo da maneira mais proveitosa que eu puder”.

Ao tempo podemos atribuir algumas características como incerteza, duração e irreversibilidade. Nada sabemos do porvir, não controlamos sua fugacidade e muitos menos podemos reverter o que passou. “Dá-me a conhecer, SENHOR, o meu fim e qual a soma dos meus dias, para que eu reconheça a minha fragilidade. Deste aos meus dias o comprimento de alguns palmos; à tua presença, o prazo da minha vida é nada. Na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade” (Sl 39.4-6).

Outra característica do tempo é seu apetite devorador: o tempo tudo consome. Mas o que levou o tempo a correr contra nós em vez de se aliar a nós? Certamente a queda. O tempo também foi afetado pelo pecado adâmico. A queda transformou o que fora criado como tempo bom em algo mau. Por esta razão o apóstolo Paulo diz em sua Carta aos Efésios que precisamos “remir o tempo, porque os dias são maus”.

Segundo Calvino, ao dizer que os “dias são maus”, Paulo confirma que “tudo o que nos cerca tende à corrupção e desorientação; de modo a ser difícil para os piedosos caminhar por entre tantos espinhos e permanecer ilesos. Tendo a corrupção infectado nossa própria época, tudo indica que o diabo se apoderou dela com toda sua tirania; de modo que o tempo não pode ser dedicado a Deus sem que o mesmo seja, de alguma forma, remido”.

O que significa, porém, remir o tempo? Levando em conta o fato de que a remissão enseja um pagamento como resgate, qual será o preço desta redenção? Calvino sugere: “Fugindo das infindáveis seduções que facilmente nos perverteriam; desembaraçando-os das solicitudes e deleites do mundo; e, numa palavra, nos esquivando de todos os obstáculos.”

Porque os dias são maus nos vemos impelidos a abrir uma brecha no tempo a fim de que Deus se faça presente de maneira efetiva. Essa fenda no tempo é representada pelos momentos dedicados ao Senhor por meio da oração, leitura devocional e estudo das Escrituras. Nesse sentido, diferentemente de sua irmã Marta, Maria precisou remir o tempo para ouvir o que Cristo tinha a ensinar (Lc 10.40).

Quantos estão dispostos a pagar o preço da redenção do tempo? Quantos estão dispostos a saírem da zona de conforto para ouvir a exposição do evangelho? Vale sempre lembrar que o tempo urge: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e sim como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão, não vos torneis insensatos, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor” (Ef 5.15-17).

Soli Deo Gloria!

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Fontes:

Agostinho, S. Confissões; São Paulo: Paulus, 1997. p. 17.

Calvino, J. Gálatas – Efésios – Filipenses – Colossenses. São José dos Campos, SP: Fiel, 2018. p. 335

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