segunda-feira, 17 de junho de 2019

DEIXEM NOSSAS CRIANÇAS EM PAZ


por Delmo Fonseca |

A cultura humanista é um rio caudaloso e de tempos em tempos suas águas rompem as barreiras que o margeiam. Na prática, estas barreiras são compostas por leis e costumes. À semelhança de Cícero, que bradou “O tempora! O mores!” ("Ó tempos! Ó costumes!), diante da constatação da decadência moral e dos costumes dissolutos de Roma, podemos soltar um brado ainda mais retumbante, pois os costumes do nosso tempo fazem os de Roma parecerem pueris. Aliás, um dos diagnósticos dessa decadência aponta para o neopaganismo. Os “deuses” modernos têm sido objeto de culto e adoração por parte daqueles que ignoram o evangelho da cruz, que por natureza é contracultural.

A cultura cristã consiste num sistema de valores que se opõe frontalmente ao “espirito da época” (zeitgeist), o rio caudaloso que tudo arrasta. Um exemplo desse embate se encontra no campo da moralidade, especificamente no que diz respeito aos limites das ações humanas. Por estar mergulhada num relativismo moral, a cultura humanista reivindica uma liberdade irrestrita para o ser humano, ou seja, “toda forma de amor vale a pena”, até mesmo a pedofilia.

E ao tratarmos desse tema, cabe lembrar que a luta pela descriminalização da pedofilia, depois das campanhas em prol da legalização das drogas e do aborto, será o assunto em pauta da agenda humanista. O que para muitos se apresenta como novidade, há tempos vem sendo orquestrado por grupos privados e ONGs a fim de que esta perversão seja vista apenas como uma “preferência sexual”. É o que defende, desde 1978, a NAMBLA - North American Man/Boy Love Association (traduzível como Associação Norte-Americana do Amor entre Homens e Garotos). Para esta entidade, adultos podem manter relações sexuais com crianças sem nenhum prejuízo, desde que sejam consentidas.

Atente para este grave fato: caso a descriminalização da pedofilia se torne uma realidade, ainda que num futuro distante, nossas crianças estarão completamente desprotegidas. No entanto, esse futuro parece estar mais próximo do que imaginamos. Se antes a pedofilia era, de antemão, um delito sexual, a partir da edição do DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), esta parafilia, cujo foco envolve atividade sexual com uma criança pré-púbere, passou a ser tão-somente um transtorno. O que mudou? O pedófilo deixa de ser um abusador contumaz, do tipo “prende e joga a chave fora”, para se tornar mais uma “vítima” da fatalidade. Ainda que a ciência demonstre que tal mal seja incurável, o “coitado” deverá ser encaminhado para tratamento psicológico; afinal, ele não tem culpa de se sentir atraído por crianças. “O tempora! O mores!”

Por meio do evangelho, a cultura cristã confronta esse espirito maligno que insiste em atacar nossos pequenos. Não há trégua. A Palavra de Deus registra a importância das crianças no plano da redenção: “Mas, vendo os principais sacerdotes e os escribas as maravilhas que Jesus fazia e os meninos clamando: Hosana ao Filho de Davi!, indignaram-se e perguntaram-lhe: Ouves o que estes estão dizendo? Respondeu-lhes Jesus: Sim; nunca lestes: Da boca de pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor?” (Mt 21.15,16).

Em termos práticos, devemos estar atentos às ações dos legisladores, pois cabe a nós, cidadãos, fiscalizar e pressionar o parlamento com a finalidade de manter a sociedade ancorada em valores que beneficiem a todos. As leis não podem ser fruto de uma pressão advinda de uma minoria que ignora o Criador, mas resultado da vontade da maioria. Não podem ser forjadas por novelas, ideologias materialistas ou pensamentos ateístas. As estatísticas provam que no Brasil os cristãos são a maioria. Assim, a cultura humanista deverá ser apenas mais um rio... um rio a correr limitado por suas margens.

Soli Deo Gloria!

segunda-feira, 3 de junho de 2019

SOBRE PROFECIAS E "PROFETADAS"


por  Delmo Fonseca |

Os movimentos religiosos são pródigos em apresentar novidades. Há novidades do lado de lá e novidades do lado de cá, se considerarmos este lado de cá como o dos evangélicos brasileiros. Por ora analisemos uma das novidades do lado de cá: as tais “profetadas”. Este é um termo jocoso muito utilizado por aqueles que questionam a legitimidade dos irmãos e irmãs (“vasos”) que vez ou outra pronunciam a expressão “o Senhor me faz saber que…”

A partir do enunciado “o Senhor me faz saber que…”, segue-se um rosário de “visões”, “revelações” e o “manto de Jeová”, tudo advindo do Senhor. Há quem chame de profecias as famigeradas “profetadas”, tais como: “O Senhor me faz saber que… o irmão terá uma grande vitória no trabalho”; “O Senhor me faz saber que… a enfermidade da irmã sarará daqui a dois dias”; “O Senhor me faz saber que… um inimigo se levantará contra sua unção” etc.  Certa feita, ao visitar seu pai que estava internado, um amigo resolveu entrar numa congregação próxima ao hospital a fim de ouvir uma palavra que consolasse seu coração, pois  havia uma suspeita de que seu ente querido talvez não pudesse resistir ao procedimento cirúrgico. Tão logo esse amigo adentra o local e se acomoda na primeira cadeira disponível, um irmão se aproxima e diz: “Deus manda te dizer que entrará com providência e seu patrão irá considerar seu pedido”. Esse meu amigo saiu do recinto um tanto atordoado porque ele não tinha patrão, era um profissional liberal bem sucedido. Numa das conversas que tivemos a respeito pude apresentá-lo a um universo desconhecido para muitos, o dos “profetas” de plantão. Esse amigo fora vítima de uma “profetada”.

No Evangelho de Mateus o Senhor Jesus nos orienta a acautelar, isto é, nos precaver contra os falsos profetas. A este respeito John Stott comentou: “Ao dizer às pessoas que tivessem ‘cuidado com os falsos profetas’ (Mt 7.15), Jesus obviamente assumiu que eles existiam. Não faz sentido você pôr um alerta no portão do seu jardim: ‘Cuidado com o cão!’, se tudo que tiver em casa for um casal de gatos ou um periquito australiano. Não. Jesus alertou seus seguidores sobre os falsos profetas porque eles já existiam”.  

Na Bíblia há sinais de alerta por todos os lados concernentes a impostores, homens e mulheres que falam falsamente em nome do Senhor. Jeremias nos dá um exemplo: “E disse-me o Senhor: Os profetas profetizam mentiras em meu nome; não os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei. Visão falsa, adivinhação, vaidade e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam” (Jr 14.14). O apóstolo João nos dá outro exemplo: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1Jo 4.1).

Poderia enumerar muitas outras referências que tratam deste tema, no entanto, aproveito a sugestão do evangelista e apresento a questão: como conseguiremos provar se um espírito vem de Deus ou não? Já em Deuteronômio encontramos a resposta: “Mas o profeta que tiver a presunção de falar em meu nome alguma palavra que eu não tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá. E, se disseres no teu coração: Como conheceremos qual seja a palavra que o Senhor falou? Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás” (Dt 18.20-22).

A pergunta que não quer calar: o “manto de Jeová” entregue por um “vaso ungido” pode ser de Deus? Eis o “mistério”. Se você não entendeu o “evangeliquês” farei a tradução:  a “revelação” advinda do “profeta” pode ser de Deus? Não dá para compreender”.  A verdade é que tudo isso não passa de um modismo, pois a revelação do Senhor não visa este ou aquele indivíduo em particular, esta ou aquela demanda pessoal. Por seu aspecto sobrenatural, a profecia é sempre uma manifestação espontânea da parte de Deus através de seus porta-vozes. E o Senhor fala unicamente por meio das Escrituras. Sendo assim, conclui-se que Deus não nos dá uma porção mágica para vencermos as dificuldades, mas princípios para vivermos n’Ele e para Ele, apesar das dificuldades.

E por que a cada dia aumenta a busca pelas “profetadas”? Porque muitos não querem um compromisso com Deus, mas se servirem de Deus. Desta forma torna-se mais conveniente buscar um atalho, alguém que possa prever os acontecimentos, facilitar as coisas. Tal comportamento observávamos em demasia nos movimentos religiosos do lado de lá, mas agora sobram exemplos do lado de cá. Mas este fenômeno já estava previsto nas Escrituras: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos juntarão mestres para si mesmos” (2Tm 4.3).

Talvez você pense que os “mestres das profetadas” sejam os irmãos que dançam e sapateiam ao som de um “reteté”, porém digo que estes são apenas irmãos entusiasmados. Os “mestres da profetadas” se autointitulam “homens ungidos”, que não podem ser questionados e ter seus espíritos provados.  Relembremos a orientação de João: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1Jo 4.1).  Veja: os falsos profetas não ficam enclausurados em suas pequenas congregações, mas saem pelo mundo, querem ganhar o mundo, iludir um número cada vez maior de pessoas. Não é de se admirar o quanto são megalômanos, pois o engano precisa ser em nível global.

Não se deixe levar por ventos de doutrinas, mas acolha a Palavra de Deus, a Palavra revelada como única regra de fé e prática.  Para tal, reflita nessa conclusão de Lutero: "Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir".  

Soli Deo Gloria!