quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

TUDO É VAIDADE?



[marcia b. fonseca]

Fausto, de Goethe, centraliza o tema da insuficiência – não importa a experiência, ela é insuficiente.  Pobre homem que não crê na suficiência de Deus.  Flaubert em “A Tentação de Santo Antão” conta que o santo, após resistir às investidas do demônio, o faz desistir.  O penitente, de joelhos, agradece a Deus, em seguida se vangloria de ter finalmente se tornado um santo. O demônio volta - “fostes vaidoso”.   Grande questão humana: Vaidade. 

O orgulho está inserido no contexto humano desde sua criação, quando Adão come da árvore do conhecimento.  Assim começa a humanidade.  De curiosidade em curiosidade, desobedecemos a Deus.  De vaidade em vaidade somos enredados às teias da fantasia por acreditar sermos mais do que somos. 

“Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações!” (Is 14.12).

O problema é sabermos a medida de nosso narcisismo.  Explico: uma vez um aluno me disse que achava a linguagem de um determinado pensador difícil.  Sob a minha ótica, já tendo observado a falta de articulação do aluno, eu diria que o problema não era do pensador.  O aluno não foi capaz de reconhecer sua mediocridade.  O narcisismo exacerbado nos dá lentes egocêntricas.  Daí o velho dito: a culpa é sempre do outro. 

“Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?” (Mt 7.3). 

Em Eclesiastes, livro escrito pelo Rei Salomão, filho de David, já velho e mais sábio, traz uma retórica interessante: “Vaidade de vaidades, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Ec 1.2).  Vaidade, característica basilar que atravessa nossa humanidade. Nem sempre íntima, a vaidade fala bem alto.  

Eclesiastes é um texto belíssimo.  A bem da verdade, não se coaduna com a liquidez dos dias atuais em que tradição e sabedoria têm sido rechaçadas, abrindo espaço para a fragilidade do presentismo e para a supremacia do desejo, marcando o hedonismo do homem contemporâneo. 

A vaidade enlouquece, literalmente.  Os egos estão poderosos o suficiente para adoecerem.  O orgulho está em pauta, e, como no exemplo de Santo Antão, o orgulho nosso de cada dia está presente até na virtude.  Quem está disposto a abrir mão de si mesmo para servir a Deus? 

Jesus disse: Segue-me (Mt 9.9).  Ou seja, abra mão de si mesmo e vem comigo.  Muitos ainda não conseguem abrir mão de si mesmos para seguirem Jesus.   A força da contemporaneidade está no eu e ao vivermos nesta cultura temos que cuidar para não sermos contaminados por seus valores: pelo consumismo, pela busca da beleza, pela indústria do entretenimento, pelos vícios – dos pecados mais expostos aos mais ocultos.  O “eu” em ruínas sofre e faz sofrer.  Não tendo valores em si, busca valores externos a si.   Sem valores em si, desvaloriza o outro.

“Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.  Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.  Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7. 19-21).

Os livros mais vendidos são os de autoajuda.  De literatura pobre, o sucesso dessas obras deve-se ao fato de dizerem ao homem exatamente aquilo que ele quer ouvir: “você pode”, você é um deus”, “tudo depende de você”, “querer é poder”.  Ditam palavras de ordem para a alegria – “seja feliz hoje”; para a riqueza – “pense grande”; e também para a saúde – “decrete sua cura”, “aposse-se da sua felicidade”.  A auto ajuda invadiu cabeceiras e púlpitos. 

A mentalidade infantil da lâmpada mágica, do gênio, da feiticeira, está entronizada de tal forma que o mundo quer magia.  Quer, e quer sempre mais.  Essa busca gera uma enorme frustração, gênese da depressão de muitos, da angústia da não realização de outros tantos, do estresse, da ansiedade.  A felicidade nunca foi tão buscada.  Há uma exigência em ser feliz.  Máscaras de sorrisos e a exposição da felicidade marcam as redes sociais.    

Nós não controlamos a vida.  Doença não dá em poste.  Temos perdas e ganhos.  Para a maioria de nós, mais perdas do que ganhos. Todos nós já passamos por fases bastante difíceis.  Temos tristezas.   Temos alegrias.  Criamos ilhas de tranquilidade.  Prazeres tem prazo de validade e o desejo fora de controle, rouba almas.  A realidade bíblica é bem diferente:

“Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo” (Jo 33.16).

Estamos nos perdendo dos verdadeiros valores humanos.  Ainda damos espaço para o que realmente importa? A generosidade, a amizade, o respeito, o colocar-se ao lado do outro, a ajuda desinteressada, a discrição, a modéstia...  Sabemos ouvir o outro, ou exigimos dele a concordância? 

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.  E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.  Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito. Não nos deixemos possuir de vanglória, provocando uns aos outros, tendo inveja uns dos outros”   (Gl 5.22-26)

Não acredite em quem decrete alguma coisa para você.  O mundo está cheio de manipuladores que movidos, ou por vaidade, ou por dinheiro, pretendem algum controle, algum poder.   Precisam destes artifícios para sentirem-se valorizados.  Se querer fosse poder não existiria nem pobreza, nem doença no mundo.  Deus é soberano. Ele conhece todas as coisas.

“Ninguém há semelhante a ti, ó SENHOR; tu és grande, e grande é o poder do teu nome” (Jr 10.6).

O sentimento de grande satisfação com o próprio valor está na base de toda soberba. A humildade está fora de moda porque é confundida com baixa autoestima. Busca-se o orgulho como autoafirmação.   Precisamos ser corajosos até para encarar nossos fracassos, ou a banalidade da liquidez humana continuará nos assombrando.  Mediocridade e covardia caminham juntas.

“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor” (1Jo 4.18).

A banalidade do falso bem é enfadonha. Nem tudo é vaidade.  Jamais seremos líquidos.  Precisamos da solidez das tradições.  Há misericórdia no mundo, há beleza até na dureza da vida e milagres acontecem. 

“... Os impossíveis dos homens são possíveis para Deus” (Lc 18.27).

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