sábado, 15 de dezembro de 2018

POR QUE VOCÊ QUER SABER?



 [marcia b. fonseca]

“O homem é escravo do que fala e dono do que cala. Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João” [S. Freud]

Sou neta de uma catalã que me ensinou grandes lições.  Uma delas merece destaque neste meu escrito. Lá vai: “quem muito quer saber, mexerico quer fazer”.  Não sei se você já passou pela experiencia de estar ao lado de alguém que te crava de perguntas. É muito desagradável. Até porque você não é obrigado a dividir com ninguém algo somente seu.  Ao longo destes anos lidando com pessoas, sei o quanto é difícil, muitas vezes dolorido, para alguém falar algo que lhe machuca, ou machucou no passado.  Feridas doem, às vezes sangram, nem sempre cicatrizam definitivamente.  Sem sombra de dúvida, quem muito pergunta é no mínimo insensível, algumas vezes indiscreto; outras, inconveniente.  Vale também analisarmos aqui os motivos de alguém querer saber tanto de um outro – saber e falar. Os “comentários” nunca são inocentes e é bom colocarmos as coisas em seus devidos lugares.  Fofoca é um mal, nunca é de boa conduta e pode causar danos irreversíveis ao outro.

As pessoas fofocam porque almejam se sentir parte de um grupo e esse hábito que pode tornar-se um vício, remonta à época dos primeiros homens e esconde em si algo maligno.  Falar do outro em nossa cultura aproxima pessoas proporcionando risos, espanto e intimidade.   Por ser mimético o homem observa o comportamento do outro e “comenta” sobre as diferenças de comportamento, de fala, de posição cultural, intelectual ou financeira.  Se somos cristãos, não devemos nos alinhar com a cultura do mundo, mas com a cultura cristã.

 “Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: se amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos.  Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos, porque todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” [1Jo 5.2-4].

Mas por que as pessoas são acometidas por estes impulsos verbais?  Um dos motivos que podemos listar é a inveja.  A inveja é sempre destrutiva, cabe aqui ressaltar.  Quando uma pessoa é admirada por alguns, fatalmente causará inveja em outros que logo usarão de comentários maldosos para que esta pessoa seja vista de outra forma pelo grupo.  Este comportamento torpe e maligno além de machucar o outro traz em si a capacidade de destruir reputações. 

“Não inveje os pecadores em seu coração; melhor será que tema sempre ao Senhor [Pv 23.17]

Um outro tipo de pessoa que se utiliza da fofoca com frequência é quem tem baixa autoestima.  Por sentir-se menor critica o outro para aliviar seu senso de pobreza de espírito. Assim, traça uma maneira vil de fazer-se notar.  
“É orgulhoso e nada entende. Esse tal mostra um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas” [1Tm 6].

A ansiedade também pode fazer com que uma pessoa fale do outro pela simples compulsão em falar.  Neste caso são pessoas vazias e com pouca inclinação para atividades intelectuais. Coisas fúteis lhes interessa mais que as coisas sólidas do evangelho, que lhes daria conteúdo.  Assim, usam a fofoca para construírem, de forma equivocada, laços sociais.  Laços tênues que logo se diluirão.  Em nenhum relacionamento sólido cabe a fofoca. 

“Quando a ansiedade já me dominava no íntimo, o teu consolo trouxe alívio à minha alma” [Sl 94.19]

Se para nossos ancestrais a fofoca tinha um viés antropológico de sobrevivência, o homem comentava sobre seus adversários para obter informação e poder para assim escapar dos perigos.  Essa prática hoje é desnecessária.  Além do mais, Deus supre todas as nossas necessidades.  Por deflagrar hormônios fundamentais, como a serotonina, a fofoca ajuda a diminuir o estresse.  Por isso, os laços criados entre os fofoqueiros criam vínculos.  Porém, estes vínculos são rapidamente desfeitos logo aparecendo a necessidade de fazer outro “comentário”.  Até que o fofoqueiro adquire a inevitável reputação de uma pessoa que fala demais, tornando-se assim, indigno de confiança. 

Paulo nos alerta sobre aqueles que “aprendem a ser… tagarelas e intrigantes, falando o que não devem” [2Tm 5.13].

Lembremos que para viver o evangelho precisamos mais do que ter “boas intenções”.  Pode sempre haver a vontade e o pecado oculto de saber da vida dos outros, de ser aquele que “está a par”, ou de sentir-se envaidecido de poder “ajudar”.  Aconselhamento é coisa muito séria, é sempre bíblico e precisa de estudo teológico e da Palavra.  É preciso que o irmão queira falar.  A intimidade de uma vida pertence a Deus.  Estudemos mais, oremos mais. Estejamos preparados para no momento oportuno dizermos: “Eis-me aqui, Senhor” e é o Senhor que te enviará para que você diga: “Eis-me aqui, meu irmão”.  Não nos é dado quebrar a confiança de um irmão, por melhor que seja nossa intenção original.

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