quinta-feira, 29 de novembro de 2018

DEPRESSÃO ENTRE PASTORES






por Marcia B. Fonseca

“Quando sofremos de depressão, desejamos que nossos pregadores, líderes cristãos e conselheiros saibam mais a respeito da prisão dentro da qual sofremos antes de se proporem a falar sobre ela”.  (Zack, E., A Depressão de Spurgeon, SP: Fiel, 2015)

A depressão revela-se como um fenômeno clínico que aponta para uma estrutura.  Medicamentos que visam tamponar, nem sempre dão conta dessa dor que desestrutura.  Não se pode saber o tamanho do sofrimento da alma humana.  O risco do suicídio aponta para a gravidade do caso. 

Com a proposta de fazer uma reflexão sobre o aumento dos casos de melancolia entre pastores evangélicos, impõe-se uma pergunta e uma preocupação: como esse líder pode remediar o próprio sofrimento com a palavra?  Uma palavra que viabilize a mudança de posição moldada pela tristeza dos aspectos negativos da experiência vivenciada. 

Podemos pensar então na depressão como uma retirada de cena.  Uma cena reflexo do real. Uma fuga daquilo que dói.  Pastores, além das responsabilidades pastorais, passam por dificuldades humanas típicas do convívio e da luta pela sobrevivência dos laços sociais, de seu ministério, de sua família, de seu desejo – mote da vida humana.  Até quando vamos fechar nossos olhos para a dor destes homens de Deus?   Quem ouve, está sendo ouvido? 

A depressão é um fenômeno singular que expõe a vulnerabilidade humana frente às vicissitudes desse mundo hostil.  Aparece como uma resposta mal construída ao luto de seus desejos castrados e de suas frustrações mal elaboradas.   Marca o cansaço.  A tristeza se imiscui impositiva e oferece suporte à alma em dor quando a ela é cobrada o dever do bem-dizer, do bem-agir e do bem-orientar.  É uma certa forma de acovardamento inconsciente cujo sujeito não sabe, ou não quer saber, sobre o algo que a determina.  Nesse cenário, quem cuida destes homens? Ou continuam conectados com a alegria, ou ruirão.  Penso ser essa uma das armadilhas que vem sendo utilizada por Satanás: mantê-los tão absorvidos pelos excessos de trabalho, de estudos, de atendimentos, de compromissos que perdem a conectividade com Deus, consigo mesmos, com a paz.    

Ouso dizer que, por suas próprias humanidades, estes homens precisam de pastores sinceros que os ouçam e lhes emprestem o ombro amigo da boa amizade.   Porém, sabemos que a palavra que viabiliza a mudança da posição moldada pela tristeza é a Palavra de Deus e é nela que encontramos os antídotos listados a seguir:

A oração frequente e insistente

Orar é dirigir todos os pensamentos para Deus.  É caminhar em sua presença, associando-se a Ele como Criador e mentor de sua vida e de tudo que você faz.  Seus desejos devem estar alinhados com Seus soberanos desejos. Ore sem trégua.  Nossa respiração deve exalar gratidão e oração.  Assim estaremos conectados em oração durante todo o tempo. 

Orai sem cessar.  “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” [1Ts 5.17-18].

A centralidade de Cristo – o evangelho puro e simples de Jesus

Essa verdade paulina tem sido cantada aos domingos em nossa congregação para que jamais esqueçamos desse ponto.   Se a cruz de Nosso Senhor for deslocada um centímetro sequer do centro de nossas vidas, o vazio será tão grande que sucumbiremos, porque nada será capaz de suprir essa falta. Repito, nada pode nos afastar da centralidade e da suficiência de Cristo:

“O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque nela foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.  E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse, E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus [Cl 1.15-20].

A meditação na Palavra

Através das Escritura nos é dado conhecer a Deus.  Ele se revela a cada dia em sua Palavra.  Meditar sobre sua Palavra é refletirmos sobre o Deus Pai, soberano que pelo beneplácito de sua vontade quis ter uma família, nos escolheu para sermos seus filhos, nos purificou pelo sangue de seu primogênito. Fomos comprados por alto preço! Logo, tudo que esse Pai de bondade incognoscível fez merece nossa total atenção e reflexão, voltando nossa mente para nosso Pai, ela estará a salvo dos pensamentos maus e dos enganos do nosso coração.

“Meditarei também em todas as tuas obras, e falarei dos teus feitos. O teu caminho, ó Deus, está no santuário. Quem é Deus tão grande como o nosso Deus?” [Sl 77.12,13]

A aplicação da Palavra

O conhecimento e o estudo da Palavra são dois requisitos básicos para sua correta aplicação. A Bíblia aponta para Cristo, nosso Redentor e Senhor, e nos ensina a nos relacionarmos com Ele.  O manejo da Palavra é essencial: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” [2Tm 2.15]. 

Quando conseguimos ver nossas angústias e nossos problemas no contexto bíblico de Jesus, somos imediatamente transformados por essa Palavra.  E essa transformação operada pelo Espírito é real, é duradoura, é maravilhosa porque teremos nos encontrado com a pessoa do Cristo.  Deus nos deu a Bíblia para que pudéssemos viver, sermos consolados e guiados em todas as áreas da nossa vida. “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” [Rm 15.4].

Sou pastor e preciso ser curado

Que o pastor deve pastorear, não resta a menor dúvida.  Foi o próprio Senhor que claramente confiou a Pedro essa ordem:

“E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros. Tornou a dizer-lhe segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas” [Jo 21.15-17].

A missão pastoral que recebeu do Mestre, foi mais tarde lembrada:
“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” [1Pe 5.2-3].

Pastores têm temores, problemas, tristezas, angústias.  “Então lhes disse:  A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo”[Mt 26.38].  E Jesus então, no Getsêmani, orou ao Pai:  “E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” [Mt 26.39].

Um pastor deve ter autoridade espiritual e teológica, disciplina, responsabilidade, zelo e amor para com aqueles a quem Jesus lhe confiou.  Algumas vezes, como Davi, um pastor precisa de perdão, misericórdia e cura:

“Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.  Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou fraco; sara-me, Senhor, porque os meus ossos estão perturbados.  Até a minha alma está perturbada; mas tu, Senhor, até quando?  Volta-te, Senhor, livra a minha alma; salva-me por tua benignidade” [Sl 6.1-4].

Uma espiritualidade rica é permeada pela oração.  Oremos por nossos pastores.  Eles são aqueles que nos apontam para Cristo e nos conduzem com Ele a pastos verdejantes.  

“O que está sendo instruído na Palavra partilhe todas as coisas boas com aquele que o instrui” [Gl 6.6].

Cuidemos de nossos pastores.

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