terça-feira, 2 de outubro de 2018

CONTRA OS ESPÍRITOS DE PORCO




por Delmo Fonseca |
 “A revolução se faz através do homem.
Mas o homem tem que forjar,
 dia a dia, o espírito revolucionário” - Che Guevara

Em meados dos anos 80, a Legião Urbana já preconizava o que viria a ser uma sociedade desnorteada: “Somos os filhos da revolução / Somos burgueses sem religião / Somos o futuro da nação / Geração Coca-Cola” (in Geração Coca-Cola, de Dado Villa-Lobos e Renato Russo). Passados quase 30 anos, nos vemos diante de um assombroso tempo em que a solidez dos conceitos, das instituições e dos valores foi suplantada pela ideia de fluidez. O caráter impermanente, próprio do que é gasoso, a exemplo da Coca-Cola, passou a ser aplicado a quase todas as coisas.

Subjacente a tudo isso, há um “espírito” dito revolucionário, que nas palavras de Condorcet (1743-1794)[i], “é um espírito apto a produzir, a dirigir uma revolução feita em favor da liberdade”. E mais: “um homem revolucionário é aquele que se vincula aos princípios da revolução, que age por ela, que está disposto a se sacrificar para sustentá-la”. Nesse sentido, tudo cabe na lógica revolucionária: o roubo, o engano, a falsidade, o medo, o ódio e a idolatria. Ou seja: tudo pela revolução. Cabe lembrar que essa liberdade advinda da revolução se refere à coletividade e não ao indivíduo. A liberdade e a vontade deste são sacrificadas em prol da liberdade e da vontade do coletivo, o qual pode ser denominado Estado, Pátria Grande etc.

O “espírito” revolucionário é, por natureza, subversivo. Tudo o que remete à tradição deve ser suplantado em nome do “novo”. Mas o que a geração Coca-Cola, outrora autonomeada “futuro da nação”, chama de novo? Vejamos: individualismo, hedonismo, consumismo, narcisismo, niilismo, ausência de valores, dentre outros. Porém sabemos que “nada há de novo debaixo do sol” (Ec 1.9). O “espírito” revolucionário é o mesmo espírito do engano que se manifestou no Éden por meio da serpente (Gn 3.1), em Babel por meio de Ninrode (Gn 10.8), em Judá por meio de Absalão (2Sm 16.20).  Esse é o espírito do mundo, quiçá imundo, “espírito” de porco.

Vale lembrar que “nós, porém, não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito procedente de Deus, para que entendamos as coisas que Deus nos tem dado gratuitamente” (1 Co 2.12). A partir da noção de que vivemos num mundo caído, devemos nos atentar para o fato de que esse mundo possui uma moldura caótica, informe, que a todo instante busca “ser” algo novo e forjado por revoluções. É necessário discernir os espíritos.

Sendo assim, ao contrário do “espirito” de porco, que por meio de revoluções vislumbra o paraíso aqui, aquele que crê no Senhor sabe que o novo se refere à verdade do evangelho, que o leva a viver em novidade de vida, a crer numa vida alhures, para além deste mundo. Sua liberdade se efetiva em Cristo; sua alegria se realiza em Cristo; sua esperança é Cristo. Portanto, “aquele que se une ao Senhor é um só espírito com Ele!” (1Co 6.17).



 Nota

1. Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, marquês de Condorcet; pensador, matemático e revolucionário francês.

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