sexta-feira, 17 de agosto de 2018

SÍNDROME DO COITADINHO




por Delmo Fonseca |

Não pensem que sentimentos de desespero
 o fariam adequado à misericórdia.
Não é o que você sente que irá salvá-lo,
mas o que Jesus sentiu.
(C. H. Spurgeon)

O ser humano busca se reinventar a cada instante. Todas as tentativas seguem na direção de seu próprio ego. O ‘homo rationalis’, cuja existência se apoiava na própria razão; dá lugar ao ‘homo sentimentalis’, todo coração. Segundo Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Mas o que há de errado com o coração? Com este, exatamente nada; mas com a instrumentalização que se faz dele, tudo. O sentimento está sendo politizado. O que antes era uma expressão privada, transformou-se num ato público. O ‘homo sentimentalis’ não se deixa medir pela “régua” moral e sim pela “régua” afetiva. Como diria Rousseau - para quem o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe -, “se estou equivocado, eu estou sinceramente equivocado, e portanto, meu erro não será considerado um crime”.

O sentimentalismo tem intoxicado a cultura com a “síndrome do coitadinho”. Partidos políticos esquerdistas investem nesse campo afetivo a fim de gerar uma massa “emotiva”, que acredita ter nascido boa e se tornado vítima da sociedade opressora. Líderes religiosos inescrupulosos também tiram proveito desse fenômeno ao estimularem encontros carregados de emoção, pois lágrimas, muitas lágrimas são derramadas em público. Num país onde o paternalismo fincou raízes profundas, tudo é justificável pela ótica do sentimentalismo.  Para Theodore Dalrymple, médico psiquiatra e escritor britânico, “o culto do sentimento não destrói apenas a capacidade de pensar. Destrói a simples ideia de que é preciso pensar”.  O ‘homo sentimentalis’ não quer pensar, apenas sentir.

Quantas pessoas, levadas pelo sentimentalismo difundido nas novelas, filmes e até mesmo telejornais já não se tornaram presas fáceis de emissoras de TV, que despejam em seus lares a falácia de que é preciso sentir-se bem custe o que custar, nem que para isso seja preciso “trocar” de sexo, de time ou de família.  Mas lembre-se: se por um lado o papel dessa mídia sentimentalista é comover para corromper, cabe a nós resisti-la. “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

Ao cristão cabe rechaçar essa “síndrome do coitadinho”, discernir os espíritos e desenvolver a fé por meio do evangelho. Como bem disse John Stott, “crer também é pensar”. E nessa tentativa de sempre se reinventar, o ser humano cai na armadilha da compaixão por si mesmo: “o coitado da família, o coitado da escola, o coitado do trabalho, o coitado da igreja” … “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17.9).

O sentimentalismo como instrumento político empurra qualquer sociedade para o abismo. Suas águas turvas eximem de qualquer responsabilidade aquele que erra, principalmente se esse erro for “sincero”. Daí o fato de um detento almejar sair do cárcere para ser presidente da República; de uma presidiária que matou seus progenitores receber indulto em datas comemorativas, inclusive no Dias dos Pais.  “O sentimentalismo é o progenitor, o avô e a parteira da brutalidade” (Theodore Dalrymple). Oremos para que o Senhor nos livre dessa praga.

Soli Deo Gloria!



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