terça-feira, 5 de junho de 2018

QUANDO O MELHOR É DIZER “NÃO”





por Delmo Fonseca*

Imagine como seria o trânsito das principais metrópoles brasileiras se não houvesse sinalização. Certamente prevaleceria a lei do mais forte. Os automóveis de grande porte colocariam em risco a segurança dos demais... motociclistas, ciclistas e pedestres teriam que contar com a sorte em todo o tempo. Não é isso que acontece no reino animal? A lei da selva é imperativa: os fracos não têm vez.

Voltemos ao exemplo do trânsito: está provado que o caos se instalaria se as ruas não fossem sinalizadas, se não houvessem regras e exigência de disciplina. Ainda assim, constatamos que mesmo havendo leis o índice de acidentes é alarmante. Na base deste fenômeno estão os seguintes fatores: negligência, imprudência e imperícia.

Um motorista negligente não leva a sério a sinalização, pouco observa o que se passa à sua volta. Essa atitude o leva à imprudência, pois lhe dá a sensação de que pode fazer o que quiser, desde o exceder a velocidade permitida a trafegar na contramão. Ou seja, para ele não há interditos, impeditivos legais ou morais. O que se segue é a imperícia, pois a reincidência dos atos anteriores confirma sua inabilidade como condutor. Por fim, o cancelamento de sua habilitação é apenas uma das sanções previstas em lei. A saber, o Brasil é o quinto país do mundo em mortes no trânsito, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

Os fatos mostram que uma sociedade que cultiva o desprezo pelas leis acaba por experimentar o recrudescimento da violência, pois cada um, ao se sentir livre para agir como quiser, imporá sua força sobre o outro. A exemplo do que há muito acontece no trânsito, outras áreas do campo social têm sido afetadas pela quebra dos interditos. É o caso de muitas famílias: não há mais sinal vermelho, não há mais PARE. Pais e mães já não conseguem dizer NÃO a seus filhos. Como consequência, percebemos um número crescente de crianças e jovens negligentes, imprudentes e imperitos. Conclusão: quanto menos interditos, mais violência, mais barbárie.

As Escrituras nos mostram que o primeiro homem tornou-se ciente de que seu “direito” de ir e vir, ou seja, seu trânsito livre dependeria da observância de um interdito: “E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). O que sabemos é que Adão descumpriu a ordem de Deus e este ato gerou consequências terríveis para todos os seus descendentes. Dentre as consequências enumeramos a satisfação que o ser humano sente ao quebrar qualquer interdito, qualquer regra proibitiva, o que nos faz lembrar o apelo de Agostinho: “Dá-me castidade e continência, mas não agora”.

O ser humano tornou-se naturalmente refratário a regras, leis e disciplinas. Desde tenra idade seu desejo consiste em viver segundo suas próprias determinações, sem deveres, obrigações e responsabilidades. Mas essa não é a cantilena dos nossos dias, a famigerada lei de Thelema? "Faze o que tu queres há de ser o todo da lei."  Essa aversão aos interditos atinge em cheio até mesmo os chamados “desigrejados”, que aspiram um cristianismo sem regras morais, um evangelho sem disciplina. Estes ignoram que o discipulado cristão consiste em submeter-se à disciplina de Cristo.

Em outras palavras, o mundo caminha por vias mal sinalizadas. Está em marcha um contingente de “vândalos” morais, cujo objetivo é combater qualquer sinal que indique o caminho da vida. Por meio de Cristo compreendemos que uma vida sem interditos conduz ao caos, à morte. Sendo assim, o evangelho nos orienta em cada trecho da estrada, nos sinaliza a parar, a olhar, a seguir. O evangelho nos ensina que Deus ao estabelecer um interdito, ao dizer NÃO, o faz porque assim o amor o exige. “Meu filho, não despreze a disciplina do Senhor nem se magoe com a sua repreensão, pois o Senhor disciplina a quem ama, assim como o pai faz ao filho de quem deseja o bem” (Pv 3.11,12).

Soli Deo Gloria!




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