segunda-feira, 18 de junho de 2018

OU ISTO OU AQUILO




por Delmo Fonseca |

“Ao que muito colheu, não sobrou;
e ao que pouco colheu, não faltou” (2Co 8.15)

As escolhas que fazemos nem sempre são as mais acertadas e a sanidade mental também pode ser medida pela capacidade que uma pessoa tem de suportar as frustrações advindas de um resultado contrário. Muitos são os momentos em que nos deparamos com situações que contrariam nossas expectativas. Em outras palavras, quando o NÃO bate à porta somos convidados a consultar o “medidor de frustração” a fim de sabermos até que ponto conseguiremos sustentar aquilo que se opõe ao nosso desejo.

A Bíblia apresenta vários exemplos de homens e mulheres que, frustrados, agiram de modo insano. A começar por Caim, temos a evidência de que o irmão mais velho de Abel se encheu de ira ao perceber que sua oferta desagradara a Deus. O NÃO do Criador revelou a Caim sua incapacidade de lidar com os dissabores próprios da vida, ou seja, que nem sempre as coisas funcionam como queremos. Ainda assim, Caim fora alertado sobre a necessidade de ser mais forte do que sua frustração: “Então, lhe disse o SENHOR: Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.6,7).

Em outros termos, pode-se considerar que a capacidade de o ser humano lidar com suas frustrações começa na infância, quando os pais estabelecem que determinadas regras não devem ser quebradas, que há uma linha demarcatória entre o SIM e o NÃO. Assim o primeiro homem foi orientado: “E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17).

Quando nos deparamos com os noticiários apontando o crescente número de “cains”, constatamos também que cada vez menos as crianças ouvem NÃO. Em contrapartida aumenta o índice de “pequenos tiranos”, que mobilizam pais e avós para lhes servirem segundo seus desejos egoístas. Estes crescem com uma ideia distorcida de que o mundo existe para seu deleite e que nada pode contrariá-los. Com isso surgem afirmações absurdas proferidas por “profissionais” que defendem o fim do NÃO. Tais “pensadores” sugerem que há uma lógica até no roubo de um telefone celular, por exemplo: o ladrão (sujeito oprimido) recebera um NÃO da sociedade de consumo, tivera seu acesso negado pelo detentor do capital (sujeito opressor) ao objeto de desejo (aparelho celular). A partir dessa premissa justifica-se o roubo, afinal todos têm o “direito” de ter tudo, ainda que à guisa de rebeldia. Não é essa a lógica de Satanás? “Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3.4,5).

A Palavra de Deus nos mostra que não se pode ter tudo nessa vida e por esta razão devemos conhecer nossas limitações e saber dos nossos limites. O evangelho contraria frontalmente certos líderes religiosos que distorcem o sentido da mensagem quando dizem, por exemplo, que o verso “tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13) sugere “poder ilimitado”, que o crente pode mover a mão de Deus em seu favor; quando o contexto apresenta um relato da experiência de Paulo a respeito das vicissitudes a que estamos expostos neste mundo. Pregações triunfalistas como esta têm gerado crentes frustrados.

Muitos, por não terem a capacidade de sustentar suas frustrações, seguem confusos quando se deparam com o NÃO de Deus. Estes querem “isto” e “aquilo” o tempo todo, não se preparam para o fato de que na vida ora temos isto, ora temos aquilo.  Que em Cristo Jesus aprendamos a “viver contentes em toda e qualquer situação” (Fp 4.11).

Soli Deo Gloria!

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