terça-feira, 1 de maio de 2018

SEDE DE DEUS



por Delmo Fonseca |

“Estendo as minhas mãos para ti;
como a terra árida, tenho sede de ti”.
Sl 143.6

Certos sentimentos transbordam quando não se pode mais suportar a pressão interna.  Esse transbordamento surge como um desabafo ou, em alguns casos, como uma explosão. A expressão “era a gota que faltava” ilustra bem a situação em que uma pessoa despeja sobre a outra suas insatisfações e desapontamentos, ainda que se dê conta da intemperança somente depois.

Há casos em que a insatisfação com a vida, consigo mesmo e com o mundo transborda em forma de música. Veja, por exemplo, a canção “(I Can't Get No) Satisfaction” (Eu Não Encontro Satisfação), dos Rolling Stones. Parte da letra diz: “I can't get no satisfaction / 'Cause I try and I try and I try / I Can It get no” (Não encontro satisfação / mas eu tento e eu tento  e eu tento / e não encontro). Se por um lado, o sentimento de insatisfação transborda em forma de música; por outro, vemos esse mesmo sentimento ultrapassar as bordas por meio da violência, rebeldia, consumismo, drogas e todo tipo de excesso.

O nível de insatisfação no mundo está tão elevado, que se visto de cima parecerá um vulcão prestes a entrar em erupção. Há um risco iminente de transbordamento. Essa insatisfação se configura como um grande vazio, o que nos faz lembrar a célebre afirmação de Blaise Pascal: "há no homem um buraco na forma de Deus". Ao constatar esta realidade concernente à condição humana, a seguinte questão se impõe: quantas pessoas se dispõem a preencher esse buraco com a presença de Deus em suas vidas? Quantas pessoas buscam a satisfação em Deus?

É preciso distinguir a insatisfação crônica mediante a ausência de Deus, da sede de Deus. Os insatisfeitos crônicos elegem outros “deuses”, seja o dinheiro ou o entretenimento, a política ou a religião, o esporte ou a ciência, a família ou a arte; enquanto os sedentos de Deus anseiam apenas pela graça de Deus. Os sedentos de Deus, à semelhança de Agostinho, esperam ansiosamente por Deus: “Tu nos criaste para Ti mesmo e nossos corações vivem inquietos enquanto não acharem repouso em Ti “.

Os insatisfeitos crônicos, por não verem sentido no evangelho, na Bíblia, na igreja de Cristo e nos valores do reino de Deus, afirmam soberbamente que o vazio explica a própria existência, que no fim a existência é nada. O que muitos não percebem é que a agenda do mundo é pautada por estes mesmos insatisfeitos crônicos, que negam a eternidade em prol de uma vida breve repleta de fortes emoções: “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”.

Ao cristão cabe discernir o que é “vazio” e “sede” de Deus. O vazio se configura como ausência, enquanto a sede se assemelha ao “querer mais”, desejar Deus cada vez mais, como bem disse o salmista: “Ó Deus, Tu és o meu Deus, eu te busco intensamente; a minha alma tem sede de Ti! Todo o meu ser anseia por Ti, numa terra seca, exausta e sem água” (Sl 63.1). Jonathan Edwards considera esta sede como um bem espiritual: “O bem espiritual é realmente capaz de nos satisfazer; quem dele provar sentirá mais sede por ele… e quanto mais experimentar, quanto mais conhecer de fato essa excelente, inigualável, e excelsa doçura e a satisfação que traz, com mais intensa fome e sede a buscará”.

A sede de Deus é também considerada por A. W. Tozer como uma das mais valorosas aspirações: “Ó Deus, tenho provado da tua bondade, e isto tanto me tem saciado como tem aumentado minha sede. Tenho dolorosa consciência da minha necessidade por graça ainda maior. Envergonho-me da minha falta de desejo. Ó Deus, Deus Triúno, quero desejar a ti; anseio estar cheio de anseios: tenho sede de ficar com mais sede ainda”.

Constatação semelhante é expressada por John Piper: "Quanto mais profundamente você anda com Cristo, mais faminto você fica por ele... mais saudoso do lar nos céus... mais você quer toda a plenitude de Deus... mais você deseja acabar com o pecado... mais você quer que o noivo volte outra vez... mais você quer que a igreja seja reavivada e purificada com a beleza de Jesus..."

E por fim, não poderia deixar de mencionar Charles Spurgeon, o Príncipe dos Pregadores”, para quem a sede de Deus é uma bênção: “Quando alguém suspira por Deus, é fruto de uma vida secreta no seu interior: ele não suspiraria muito tempo por Deus por sua própria natureza. Ninguém tem sede por Deus enquanto ainda estiver no seu estado carnal (ou seja, não convertido). A pessoa não regenerada suspira por qualquer coisa antes de suspirar por Deus. É prova da natureza renovada ter um anseio por Deus; é uma obra de graça na sua alma e você deve ser profundamente agradecido por isso”.

A sede de Deus, diferentemente de uma insatisfação que do coração inquieto transborda, é uma das marcas do cristão.  A sede de Deus tende a aumentar na medida em que o cristão o buscar. E quanto a você: que tipo de “insatisfação” tem experimentado? O vazio do mundo ou a sede de Deus?

 Saiba que Cristo é a fonte de água viva a jorrar para a vida eterna (Jo 4.14).  Atente-se para o fato de que o Espírito de Deus lhe convida a beber dessa água gratuitamente: "Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e, vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo” (Is 55.1).

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