sexta-feira, 25 de maio de 2018

DE SONHOS E PROMESSAS



por Delmo Fonseca 

Há um verso da poeta chilena Gabriela Mistral, que resume o mote do nosso texto: “todos nós temos duas vidas: a com a qual sonhamos e a que somos obrigados a viver ...” Em outras palavras, nos situamos numa zona fronteiriça onde realidade e fantasia se tangenciam. Por que o simples ato de andar com os “pés no chão” é, para muitos, menos atraente do que andar com a “cabeça nas nuvens”? Ou melhor: por que muitos preferem a fantasia à realidade. A resposta é simples: a realidade nos mantêm despertos, enquanto a fantasia nos lança num estado sonambúlico.

A realidade, sob vários aspectos, ora se apresenta árdua e hostil, ora amena e tranquila. Por ser árida na maioria das vezes, provoca em muitos o desejo de fuga. Daí o fato de que fugir da realidade é quase sempre a alternativa mais viável para quem prefere a leveza da fantasia. Até mesmo o salmista, diante de uma série de infortúnios, se viu tentado a escapar da realidade: “O meu coração está acelerado; os pavores da morte me assaltam. Temor e tremor me dominam; o medo tomou conta de mim. Então eu disse: ‘Quem dera eu tivesse asas como a pomba; voaria até encontrar repouso! Sim, eu fugiria para bem longe, e no deserto eu teria o meu abrigo. Eu me apressaria em achar refúgio longe do vendaval e da tempestade’" (Sl 55.4-8).

Quem nunca, ao menos uma vez na vida, acalentou o desejo do salmista? Fugir para um lugar distante, abrigar-se das vicissitudes, proteger-se das intempéries, enfim, viver à margem das tribulações. Talvez esse desejo revele nossa predileção por andar com a “cabeça nas nuvens” em vez de fincar os “pés no chão”. A Palavra de Deus é pródiga em nos mostrar que a realidade nem sempre se ajusta ao que sonhamos. Abraão, por exemplo, vislumbrou uma terra que manava leite e mel, porém se deparou com uma Canaã muito diferente de seus sonhos: “Havia fome naquela terra; desceu, pois, Abrão ao Egito, para aí ficar, porquanto era grande a fome na terra” (Gn 12.10). Até mesmo Elias, após a peleja contra os profetas de Baal, considerou a possibilidade de uma vida mais amena. No entanto, se deparou com outra realidade ante a ameaça de Jezabel, o que o levou a uma grande frustração: “Ele, porém, foi ao deserto, caminho de um dia, e foi sentar-se debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte, e disse: Já basta, ó Senhor; toma agora a minha vida, pois não sou melhor do que meus pais” (1Rs 19.4).

Diante da constatação de que a realidade nem sempre se ajusta aos nossos sonhos, o que sugere uma conclusão pessimista, será que há espaço para a esperança de que ainda experimentaremos dias melhores? Aos que creem, a resposta é um altissonante “sim”. Disse Jesus: “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33). As Escrituras confirmam que Abraão e Elias experimentaram o consolo de Deus ao final de suas vidas. Por razões semelhantes, cremos que as provações e toda sorte de tribulações, por mais sofrimentos que possam infligir, não ultrapassarão a nossa capacidade em Cristo de suportá-las.  Ele venceu o mundo.

Sendo assim, cabe a pergunta: estamos impedidos de sonhar? De maneira alguma. O que não podemos é buscar refúgio na fantasia, seja esta de que matiz for, ainda que a vida com a “cabeça nas nuvens” pareça mais tentadora do que a ser vivida com os “pés no chão”. Para tanto, precisamos crer na misericórdia de Deus, esperar nele, pois suas promessas são melhores do que os nossos sonhos: “os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão” (Is 40.31).

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