quarta-feira, 11 de abril de 2018

SI HAY IDEOLOGIA, SOY CONTRA



por Delmo Fonseca |

Com alguma frequência tenho escrito sobre o quanto a ideologia é danosa, seja de esquerda ou direita, vermelha ou amarela, religiosa ou agnóstica. “Si hay ideologia, soy contra”. A ideologia causa torpor, histeria, fanatismo, idolatria e indolência.  O país atravessa um momento histórico em que vemos diversas ideologias sendo expostas. Ideologias políticas, por exemplo, estão a mostrar suas vísceras, de modo que amizades são desfeitas, agressões são cometidas e justificadas de parte a parte em defesas de seus ídolos.

Nesse caso, a ideologia se configura efetivamente como “religião política”, como assinalou com muita propriedade o filósofo Eric Voegelin: “E por isso mesmo é que as ideologias podem dizer-se ‘religiões políticas’, ou seja, porque pretendem substituir aquilo que, de uma maneira ou de outra, verazmente ou falsamente, sempre regeu as cidades ou sociedades: a religião”.

Seguidores de ideologias, ainda que confessem alguma simpatia pelo evangelho, quando chamados a defenderem a cosmovisão cristã o fazem com reservas. Tal fato se dá por acreditarem na possibilidade de conciliação entre o reino de Deus e o reino dos homens. Não há conciliação, por exemplo, entre o  Cristianismo e o Marxismo, uma ideologia que apregoa que a matéria é eterna, incriada, indestrutível, sempre em movimento; que  tudo pode ser explicado pela dialética material e que o espiritual não passa de uma ficção.  Já o Cristianismo professa que o mundo material foi criado por Deus. “Teus são os céus, tua, a terra; o mundo e a sua plenitude, tu os fundaste” (Sl 89.11).

Se o próprio Marx rejeitava a religião, considerando-a “ópio do povo”, o que posteriormente seria um absurdo a ideia de “marxistas cristãos”, como pode ser concebido a figura do “cristão marxista”? A ideia é surreal, mas o fato é que nossas “igrejas” estão repletas de pastores e padres marxistas. O ateísmo é um pressuposto marxista, mas há quem veja nisso um mero detalhe. O que é dado como irrelevante, passa a ser a porta de entrada para tantas outras ideologias, como a aplicação do “politicamente correto” na liturgia, por exemplo. Há meio termo? De forma alguma.  “Que harmonia há entre Cristo e Belial?” (2Co 6.15). 

Não bastasse a evidente incompatibilidade entre a cosmovisão cristã e o materialismo histórico, há quem desconheça as duas coisas e acabe por embarcar na “nau da estupidez”, isto é, defende o socialismo mas não abre mão das benesses do capital, o que comumente atende pelo nome de “esquerda caviar”. Outra coisa: quem não é de esquerda é necessariamente de direita? Se o fato de ver o mundo pela ótica do evangelho for configurado como um olhar conservador, que assim seja. Ao menos há a garantia de que o evangelho não é uma ideologia, pois “si hay ideologia, soy contra”.


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