sábado, 28 de abril de 2018

SEU CORPO, SUAS REGRAS



por Delmo Fonseca

Por que o ser humano é tão refratário às normas morais? Imagine uma associação entre a “fome” e a “vontade de comer”, sendo a fome o “niilismo moral” e a vontade de comer, o “hedonismo contemporâneo”. Niilismo é um termo derivado do latim nihil, que significa “nada”. Nesse caso, para o niilista moral “nada é moral ou imoral”. Para o niilista, um Deus absoluto é impensável, logo dispensável.  Conforme concluiu Ivan Karamazov, personagem do grande Dostoiévski, “se Deus não existe, tudo é permitido”.

Já o hedonismo, desde sua concepção moderna, se configura como uma teoria que proclama o prazer como o supremo bem. O hedonista também torce o nariz para as normas morais, pois estas impõem limites à sua excessiva busca pelo prazer. Uns dirão: o que há de errado no prazer? Ora, o erro não está no prazer em si, mas no prazer como finalidade última. E sabe-se que a compulsão pelo prazer tem um nome: vício. Outros dirão: e que mal há no vício? Ora, o vício gera escravidão. Por fim, não faltará quem questione: que mal há na escravidão?

O niilismo e o hedonismo, em parte, explicam o nosso tempo e a nossa sociedade:  inexistência de pecado e prazeres ilimitados. Quem se opuser a isso ganhará a pecha de “moralista”, “antiquado”, “fundamentalista”, “conservador” etc.  Mas, retornando à pergunta inicial, por que o ser humano é tão refratário às normas morais? Por que o número de pessoas que só querem fazer o que lhes dá prazer aumenta a cada dia? Por que tanto desprezo pelas leis? Por que niilistas e hedonistas não abrem mão de viver segundo suas próprias regras?

É sabido que a palavra norma (normallis em latim) foi cunhada por carpinteiros e pedreiros romanos para designar o que conhecemos como esquadro, instrumento obrigatório numa edificação. Eles concluíram que seria impossível medir um ângulo reto sem o auxílio de um esquadro. No entanto, em vão a sociedade contemporânea busca realizar a proeza de formar pessoas retas, íntegras, sem o auxílio de um “esquadro” moral. Uma sociedade “torta” é consequência da inaptidão em seguir regras, respeitar normas. O que impressiona é que esta mesma sociedade passa a ser regida por todo tipo de regulamentos, desde um vagão exclusivo para mulheres no metrô, à multa para quem joga lixo no chão. O contraste com outras sociedades onde as normas são respeitadas é evidente: prevalece o bom senso.

Mas se a norma é um esquadro moral, quem melhor poderia nos ensinar sobre retidão senão aquele que antes de iniciar seu ministério trabalhou como carpinteiro em Nazaré? Os valores de Cristo transcendem a acepção comum que reduz o termo moral (mores em latim) a costumes. A moral cristã diz respeito a valores espirituais (leis morais) que levam o homem a uma vida reta. Não se trata de um conjunto de regras de conduta que o torna legalista, isto é, mero observador da letra fria da lei, do tipo: "Não manuseie! " "Não prove! " "Não toque! " (Cl 2.21). No entanto, compreende-se que a essência da lei é boa: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo, tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores” (1Tm 1.8,9).

Qual a possibilidade de um cristão viver sem normas, ser um fora da lei? Nenhuma. O cristão não tem outra escolha senão viver sob a disciplina de Cristo. Ao cristão cabe a obediência às leis morais de Deus, as quais se baseiam na natureza do próprio Deus, que é o padrão absoluto de justiça. E ao falar de justiça, as Escrituras falam de retidão. Numa sociedade cada vez mais niilista e hedonista, em que o padrão é não ter padrão, a regra é não ter regra e a norma é não ser normal, confessar-se cristão é optar por viver na contramão do mundo. 

Por esta razão, dizer-se cristão e orgulhar-se de ser um “desigrejado” é também uma tentativa de impor suas próprias regras, em vez de se submeter ao senhorio de Cristo. “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns;” (Hb 10.25). Sabe-se que a igreja invisível, composta pelos eleitos, é o Corpo de Cristo. Segundo R. C. Sproul, “Calvino insistiu que a igreja invisível existe substancialmente dentro da igreja visível. E que a principal tarefa da igreja invisível é tornar a igreja invisível, visível.”  E as regras seguidas pelo corpo são estabelecidas pelo Senhor desse corpo, mediante a orientação do Espírito Santo. “Desse modo, quando um membro sofre, todos os demais sofrem com ele; quando um membro é honrado, todos os outros se regozijam com ele. Ora, vós sois o Corpo de Cristo, e cada pessoa entre vós, individualmente, é membro desse Corpo” (1Co 12.26,27).

Observa-se também que em tempos de exacerbação do narcisismo, em que se percebe cada vez mais a exaltação do eu, a noção de um corpo orgânico se esvai. Logo, uma igreja autárquica, que busca governar a si mesma, embora visível, em nada se coaduna com a igreja invisível.    A Igreja é de Cristo, o Corpo é de Cristo... as regras que a regulam também são de Cristo.





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