sexta-feira, 2 de março de 2018

POR UM EVANGELHO PURO E SIMPLES



por  Delmo Fonseca |

Tornou-se comum ouvirmos a expressão “simples assim!”. A pergunta é: será que tudo o que nos é apresentado como simples é realmente simples? Expressões como: “fulano é uma pessoa simples”, “não repare, a casa é muito simples”, por exemplo, parecem significar gestos de humildade. Nem sempre o são. Há muita confusão entre os termos simples e simplista, simples e simplório. Para início de conversa o simplismo, em sua essência, é um pecado. Por quê? O simplismo se configura como um vício que consiste em desprezar aquilo que é essencial, de modo que o simplista costuma deixar de lado o que é mais importante. E isto acontece em todas as áreas da vida.

A simplicidade, por sua vez, dispensa os excessos, as extravagâncias, os exageros. O sujeito simples, diferentemente do simplista, busca aquilo é substancial. Nem mais nem menos, apenas o essencial. Neste sentido, podemos inferir que o simplismo é o que predomina em nossa cultura religiosa, pois é gritante o fato de que o que se busca nas igrejas pouco tem a ver com o que realmente importa. Multiplicam-se a cada dia o número de pregações centradas no indivíduo mimado, que não admite passar por nenhuma dificuldade, não sustenta frustrações Daí as mais variadas invencionices com o propósito de cativar os menos atentos: ênfase nas reuniões de “vitória”, “restituição”, “ano da colheita” etc. Soma-se a isso os desafios, as campanhas, as correntes, os sabonetes, óleos e rosas “ungidas” e toda sorte de entretenimento como balé gospel etc.

Em que momento se busca o essencial, que é a adoração ao Único que é digno de ser glorificado? Percebe-se que em muitos casos, o ato de adoração se restringe a um louvor que também desloca o Senhor do centro. Louvores, que aos olhos humanos, têm "sabor de mel", mas que aos olhos de Deus nada dizem.

A Bíblia nos dá o exemplo das irmãs Marta e Maria, que reagiram de maneira distinta à presença de Jesus (Lc 10.38-42). Embora esta passagem possibilite as mais diversas abordagens, queremos destacar o seguinte: as duas irmãs representam a diferença entre o simplismo e a simplicidade. Não podemos desconsiderar o trabalho, o esforço de Marta em querer servir a Jesus por meio de sua habilidade na cozinha, mas a questão é: a essência do servir a Deus está em fazer coisas com o intuito de agradá-lo? Num outro episódio e em outro contexto, mas em consonância com o nosso tema, Samuel disse ao desobediente e simplista Saul: “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15.22). Foi o caso de Marta: seu simplismo a distanciou do essencial, que é a Palavra. Disse Jesus: “Marta, Marta, andas preocupada e aflita com tantas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada” (Lc 10.41). 

Maria, por sua vez, preferiu o essencial. Isso não lhe seria tirado do coração. "De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Rm 10.17). Ao agir assim, Maria optou pela simplicidade do evangelho. Não é de se estranhar que em nossos dias muitos rejeitam as igrejas que se esforçam para levar a Palavra, somente a Palavra pura e simples. É que não há espaço para entretenimentos, modismos, meros ajuntamentos. O tempo urge.

Há um sem número de pessoas que possuem uma relação simplista com o ato de congregar e, em consequência disso, com o ouvir a Palavra de Deus. Membros que frequentam os cultos quinzenalmente, jovens dos grupos de louvores que preferem bater papo na porta ou pátio da igreja no momento da pregação; jovens que não se desconectam das redes sociais enquanto o pastor ministra, além das irmãs da cantina, dos irmãos do estacionamento, que embora sejam de grande valia para a congregação, deixam de ouvir o essencial, que é o evangelho de Cristo. 

Aprendemos que o nosso desafio é fazer com que o propósito de Deus se cumpra em nossas vidas, que é o de glorificá-lo. "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). Simples assim. 


Soli Deo Gloria!

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