quarta-feira, 21 de março de 2018

O MÉXICO É AQUI?



por Delmo Fonseca |

De tempos em tempos uma dúvida me sobrevém. Algumas vezes me flagrei questionando se o Haiti, Colômbia ou a Venezuela não seriam aqui. Desta vez a minha dúvida se volta para o México. Será que o México é aqui?  Digo isso porque nos últimos dias tenho me correspondido com um amigo, também pastor, natural daquele país que outrora fora conhecido por seu rico patrimônio histórico e cultural, e que atualmente mais parece uma “terra sem lei”.

Dados oficiais indicam que o México atingiu no ano de 2017 o número recorde de homicídios desde que esses números começaram a ser registrados há 20 anos. Com uma média de 80 mortes por dia, ou 2.400 por mês, o país se vê mergulhado num caos: barbárie, corrupção e, principalmente, o narcotráfico. Os cartéis mexicanos são os principais provedores de drogas para os Estados Unidos.

Há solução para o México? O meu amigo não sabe responder. Talvez ninguém saiba. No entanto, para salvaguardar sua família ele busca um refúgio num lugar mais seguro, pois a violência chegou a um nível tal de banalização, que qualquer ato mal interpretado pelos “barões” das drogas, soa como um desafio à morte.  Pregar o evangelho em determinadas regiões do México se tornou um ato desafiador. Transcrevo a seguir uma parte da matéria veiculada recentemente pela organização cristã internacional Portas Abertas (que atua em mais de 60 países apoiando os cristãos perseguidos por sua fé em Jesus):

“Um dos líderes da igreja no México forneceu uma nova visão sobre o tipo de perseguição que os cristãos na América Latina estão enfrentando em áreas controladas por cartéis de drogas. O pastor que pediu anonimato por razões de segurança disse a um dos colaboradores da Portas Abertas que ‘sem pagar tributos a eles’ as igrejas não podem permanecer funcionando. Essa informação já foi divulgada em nosso site através de algumas matérias, entre elas ‘Igrejas no alvo dos cartéis de drogas’. Mas agora o líder dá novos detalhes.

‘Os cartéis estão muito bem organizados e podem seguir todos os nossos movimentos. Não se pode ir a lugar algum sem proteção. Estamos falando de locais muito próximos à capital do país, o que significa que, o problema que costumava ser típico das cidades do norte, que fazem fronteira com os Estados Unidos, está se tornando um problema comum para todo o México’, explica. Infelizmente, segundo um dos colaboradores da Portas Abertas ‘a maioria dos casos não são relatados’”.

Confesso que durante as conversas que tive com esse amigo pensei em sugerir o Brasil como refúgio, mas logo me veio a dúvida: nesse quesito, o que o Brasil difere do México? O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) informa que o Brasil registrou, somente em 2015, 59.080 homicídios. Isso significa 28,9 mortes a cada 100 mil habitantes. Em 2016 a OMS (Organização Mundial de Saúde), noticiou que a nossa situação era pior do que de países como Haiti (26,6), o próprio México (que subiu para 22) e Equador (13,8), cujas taxas de homicídio, apesar de altas, eram inferiores às brasileiras. Com isso, o Brasil só perdia para países como Honduras (103,9), Venezuela (57,6), Colômbia (43,9) e Guatemala (39,9).

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2016 foram registradas 61.619 mortes violentas, o que equivale ao número de mortes provocadas pela bomba atômica em Nagasaki, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial.

Se considerarmos que em 2016 o Estado do Rio de Janeiro apresentou uma taxa de mortes violentas (37,64 por 100 mil habitantes) bem acima da média nacional, é espantoso saber que Sergipe registrou a maior taxa de 64, seguido de Rio Grande do Norte, com 56,9, e Alagoas, com 55,9 - todos estados do Nordeste. As capitais com maiores taxas de assassinatos por 100 mil habitantes foram Aracaju, com 66,7, Belém, com 64, e Porto Alegre, com 64,1.

O que se pode constatar é que não há um porto seguro, ou seja, um lugar imune a esse tipo de “pandemia”, pois a violência se disseminou de tal maneira que até mesmo algumas cidades do interior, outrora pacatas, já não oferecem nenhuma segurança. Diante de tanta exposição à violência, seja por meio de noticiários ou outros meios (pois muitos residem em áreas de maior incidência de mortes), corremos o risco de não mais nos sensibilizar com o mal. Assim, o que antes causava perplexidade já não produzirá o mesmo efeito. E o mais grave: com o tempo passa-se a ver o mal como algo normal.

Tudo isso nos faz recordar os dias de Noé, quando “a terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus; e encheu-se de violência” (Gn 6.11). E o que impressiona é que este versículo retrata fielmente os tempos atuais. A terra novamente encheu-se de violência. Decorre que no tempo de Noé o juízo veio por meio de um grande dilúvio, mas qual juízo está reservado para os últimos tempos?

Muitos dirão que já está em marcha o quarto cavaleiro mencionado no livro do Apocalipse 6.8: “E olhei, e eis um cavalo amarelo e o seu cavaleiro, sendo este chamado Morte; e o Inferno o estava seguindo, e foi-lhes dada autoridade sobre a quarta parte da terra para matar à espada, pela fome, com a mortandade e por meio das feras da terra”. Seja como for, podemos dizer que apesar de tudo Deus permanece no controle de todas as coisas. Nada escapa aos seus olhos.

Por fim, minha oração é para que “mi hermano” dê continuidade a seu ministério; que também sejamos livrados da violência e que o nosso país, assim como o México e as demais nações, sejam apaziguadas.  


Soli Deo Gloria!

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