terça-feira, 20 de março de 2018

MEMÓRIA E GRATIDÃO



por Delmo Fonseca

“Mas Sião diz: O SENHOR me desamparou, o Senhor se esqueceu de mim. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti” (Is 49.14e15).

Há nas Escrituras um sem número de menções ao ato de recordar, isto é, "trazer de novo ao coração". Para os romanos o coração era a sede da memória. Ao se referir a Deus como aquele que constantemente se lembra, devemos pensar que este ato não implica, necessariamente, numa lembrança ou recordação pretérita, mas numa ação eficiente e que redunda em graça e misericórdia no presente. “E aconteceu que, destruindo Deus as cidades da campina, lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló do meio da destruição, derrubando aquelas cidades em que Ló habitara” (Gn 19:29).

Passado, presente e futuro são categorias temporais a que estamos condicionados, mas Deus é eterno, o que significa que “um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3.8). Logo, a lembrança de Deus não é um resgate de seu passado, pois diferentemente de nossa condição humana e transitória, Deus é. “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1.17). De nossa parte, sem uma memória ativa nos comportaríamos como quem sofre de amnésia. A Bíblia narra várias passagens em que o povo perece por não exercitar a memória, não se lembrar dos tantos livramentos recebidos do Senhor. “Porventura esquece-se a virgem dos seus enfeites, ou a noiva dos seus adornos? Todavia o meu povo se esqueceu de mim por inumeráveis dias” (Jr 2.32).

Mas as Escrituras mostram que Deus previra este esquecimento, por isso instituíra ritos memorias como a Páscoa: “Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao SENHOR; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (Ex 12.14). A cada ano a celebração da Páscoa judaica remete-se à lembrança da libertação do cativeiro egípcio. Outro rito memorial alude à Festa dos Tabernáculos, que consiste numa recordação dos hebreus que peregrinaram no deserto após a saída do Egito. “Disse mais o SENHOR a Moisés: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Aos quinze dias deste mês sétimo, será a Festa dos Tabernáculos ao SENHOR, por sete dias” (Lv 23.33-34).

A celebração da Ceia do Senhor é um ato de recordação. Celebramos o estabelecimento da nova Aliança. “E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19). No novo Pacto a Páscoa é ressignificada, ou melhor, encontra seu verdadeiro sentido, pois Cristo foi sacrificado como um cordeiro em favor dos eleitos. “Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade” (1Co 5.7-8).

No tempo da graça a Páscoa nos faz lembrar que somos novas criaturas, massa sem fermento. Recordar, isto é, não deixar as palavras do Senhor caírem no esquecimento nos ajuda a manter um coração grato e renova nossa esperança em Deus. Foi esta experiência que restaurou as forças do profeta Jeremias, que diante da adversidade pôde expressar: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” (Lm 3.21). A angústia tomava conta de Jeremias, pois este sofria ao testemunhar a aflição do seu povo, que padecia justamente por ter esquecido os preceitos do Senhor. O profeta abandona suas lamentações ao se lembrar do quanto Deus tem derramado sua misericórdia continuamente, razão pela qual o povo ainda não havia perecido. “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade” (Lm 3.22-23).

A Bíblia também chama a atenção para o fato de que o Senhor não pode ser objeto de esquecimento dos jovens. Desde tenra idade a memória a respeito do Criador deve ser cultivada: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer” (Ec 12.1).  A realidade é pródiga em mostrar que muitos se achegam ao Senhor após serem alcançados pela fadiga, já carcomidos pelo tempo e sem vigor. Todo tempo é tempo, todavia neste caso não há o que recordar, pois não houve caminhada, experiência com Deus.

Uma memória sã contribui para uma vida saudável. É preciso, porém, lembrar que vive melhor quem não se esquece dos feitos do Senhor, do seu grande amor, da sua maravilhosa graça. Deus nos ama de tal maneira, que mesmo sendo impossível escapar qualquer coisa aos seus olhos, ainda assim opta por lançar no mar do esquecimento as nossas máculas. “Dos seus pecados e iniquidades não me lembrarei mais" (Hb 10.17).

O evangelho nos coloca na dimensão do reino de Deus, em que a gratidão se faz necessária, imprescindível. Por isso o apóstolo Paulo conclui: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5:18). Que a nossa gratidão ao Pai seja contínua e não passageira.


Soli Deo Gloria!


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