quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

SOBREVIVENDO AO DESERTO


por Pr. Delmo Fonseca |

"Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho nos telhados" (Sl 102.6,7)

A sensibilidade de Davi o capacitava a transformar o prosaico em poético. Explico: o aspecto prosaico da vida nos remete a experiências dolorosas. O povo hebreu pôde perceber este aspecto enquanto atravessava o deserto. O salmista, por sua vez, vivenciava duas situações preocupantes: sua enfermidade e a fragilidade da nação.

Ainda assim, Davi encontrou na poesia a melhor maneira de expressar sua aflição: “Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho solitário nos telhados”. Ele recorre à metáfora, figura de linguagem que se firma como a ferramenta dos poetas. Não satisfeito, se compara a três aves: pelicano, coruja e pardal.

Analisemos o pelicano: é uma ave extremamente adaptada ao ambiente marinho, se alimenta e vive praticamente toda a vida na água, retornando à terra apenas para aninhar. Um pelicano no deserto é um pássaro fora de seu habitat natural, suscetível às imposições do lugar, como calor e falta de comida.

Por livre vontade um pelicano não procuraria o deserto. Tal qual esta ave marinha, Davi se via numa situação que não escolhera. “Como sombra que declina, assim os meus dias, e eu me vou secando como a relva” (v. 11). Eis a súplica de um homem sofredor. Aliás, o Salmo 102 é conhecido como a oração de um aflito que, quase desfalecido, derrama o seu lamento diante do Senhor.

Assim acontece conosco quando percebemos que o deserto é a realidade na qual fomos lançados. Isso mesmo: às vezes somos lançados no deserto. É quando, à semelhança do salmista, nos sentimos como um pelicano longe do mar, das águas acolhedoras, fonte de alimentos.

No deserto da vida sofremos com o calor da injustiça, com a fome da paz e a sede de alegria, mas temos um alento: “Não terão fome nem sede, a calma nem o sol os afligirá; porque o que deles se compadece os guiará e os conduzirá aos mananciais das águas” (Is 49.10).

O Senhor Jesus Cristo é o nosso manancial. Nele encontramos a vida que vale a pena a ser vivida, o caminho que vale a pena ser percorrido, a sombra na qual vale a pena sentar e descansar. Em Cristo podemos perceber que o deserto, embora prosaico por natureza, pode também assumir um aspecto poético.

Por isso devemos orar, derramar nosso coração diante do Pai a fim de aprendermos mais a respeito de sua vontade: “Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes” (Jr 33.3)


Soli Deo Gloria!



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