segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O MUNDO É UM ABISMO



por Delmo Fonseca |


Quando se pensa em consumismo, geralmente o que vem à baila é o entendimento de que este se resume a um modo de vida orientado por uma desenfreada aquisição de bens ou serviços, ainda que desnecessários. No entanto, o foco se direciona para o ser humano que consome e esquece-se que este mesmo ser humano é consumido. Eis o paradoxo: o ser humano é consumido na medida em que consome.

A natureza humana, a exemplo da sanguessuga e suas filhas, se mostra cada vez mais insaciável, nada é o bastante. “A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem: Basta! A sepultura; a madre estéril; a terra que não se farta de água; e o fogo; nunca dizem: Basta! (Pv 30.15-16). Vivemos num tempo em que a expressão “basta” fora relegada a segundo plano; pois o que está em evidência é “mais, sempre mais”. Mais prazer, mais sapatos, mais crédito no cartão para consumir, mais adrenalina, mais sexo, mais festas, mais viagens, mais dinheiro.

Esse espírito consumista contraria frontalmente a Palavra de Deus, que diz: “Não andeis ansiosos de coisa alguma” (Fp 4.6). A ansiedade traduz o espírito do mundo, juntamente com a ganância e a cobiça. O espírito do mundo é um abismo que consome o ser humano, suga suas energias, seu vigor. O Livro de Provérbios (27.20) registra que “o inferno e o abismo nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem”. Até mesmo Friedrich Nietzsche - um filósofo abismado - constatou: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

O ser humano segue olhando para o abismo: uma criança, por exemplo, em tenra idade já faz exigências descabidas, fruto de uma ansiedade que tende a se tornar crônica. Esta criança, ainda que os pais não se deem conta, está sendo engolida pelo mundo. A televisão, o smartphone, as redes sociais são tentáculos deste abismo que nunca se farta. Com isso, falta tempo para o diálogo entre pais e filhos, marido e mulher. Falta tempo para a oração, falta tempo para a adoração.

O príncipe deste mundo bem sabe o quanto seu fim se aproxima, por isso seu empenho, sua astúcia consiste em engendrar situações que possam povoar ainda mais esse abismo. Como podemos constatar esta realidade? A lógica do mundo, que estabelece o indivíduo como medida de si mesmo, dita comportamentos e novos valores, que ao sabor do relativismo moral rechaça qualquer interferência da cosmovisão cristã. O mundo já entrou em muitas igrejas, já consome a maior parte do tempo de pastores e ovelhas. O mundo é um abismo e o abismo nunca se satisfaz.

Mas nem tudo está perdido. O apóstolo João nos orienta a viver neste mundo sem ser consumido por ele:                                                         
“Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1Jo 2.15-17).

Não há meio termo: ou o filho de Deus se deixa consumir pelo mundo e não se tem o amor do Pai, ou se volta para o Senhor e despreza o mundo a fim de que se cumpra esta intermediação de Jesus junto ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou” (Jo 17.15-16).


Soli Dei Gloria!


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