terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

GRAÇA BARATA: JOIO EM MEIO AO TRIGO


por Delmo Fonseca |

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” - Tito 2.11-12.

Num texto anterior abordamos o fato de que o mal não descansa. E continuamos frisando que os agentes do mal, segundo a própria natureza, cumprem seu papel sem mostrar sinais de fadiga, enfado ou desânimo. Por outro lado, os que poderiam estar lutando em prol do evangelho, se esmorecem ante a primeira dificuldade. Em duas ocasiões, nas cartas destinadas aos gálatas e aos tessalonicenses, o apóstolo Paulo orientou: “E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9), “Quanto a vocês, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts 3.13). Eis o paradoxo: os que são orientados a anunciar o evangelho, isto é, semearem trigo, correm o risco de abandonar a missão alegando cansaço ou falta de estímulo, enquanto os que semeiam joio e propagam uma “graça barata” nunca desanimam.

O termo “graça barata” foi designado por Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo da Igreja Luterana da Alemanha, em referência  a uma fé estéril e inútil. "A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina comunitária, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado.”

Na atualidade temos observado uma crescente ousadia por parte dos semeadores de joio (“graça barata”) quando se trata de desqualificar a Noiva de Cristo. E  o que mais impressiona é que eles fazem isso distorcendo a preciosa graça de Deus. Tais oportunistas  têm arrastado mentes ingênuas, pois falam o que estas querem ouvir, aumentando assim o contingente dos “rebeldes sem causa”. O apóstolo Paulo também alertou: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada” (1 Tm 4.1,2).

Homens de mente cauterizada, eis o veredito do apóstolo Paulo. A mente cauterizada torna-se insensível, como se tivesse sido queimada a ferro em brasa. Qual a consequência? O evangelho perde seu efeito transformador, sua eficácia. Não bastasse isso, tais homens se voltam contra a Noiva de Cristo, que é o seu Corpo, atacando sua parte visível, isto é, a corporação formada por pessoas. Agostinho ensinou que a igreja é um corpus permixtum, significando que a igreja é um corpo misto (corpo visível e invisível). Justamente por isso, os semeadores de joio ao disseminarem uma “graça barata”, encarnam os agentes do mal ao se intitularem “desigrejados”,  por exemplo, negando a necessidade da koinonia, da comunhão in loco entre os irmãos em Cristo. Em Hebreus 10.25  temos a confirmação dessa necessidade: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia”.

 Quais os efeitos colaterais de um movimento como os “desigrejados”? Negação do princípio de autoridade, ênfase na autossuficiência, combate feroz ao ato, ainda que espontâneo, de contribuir com dízimos e ofertas, além de estabelecer uma forma particular de interpretar a Bíblia e praticar a fé. Daí o subterfúgio de muitos aos se aplicarem às obras de caridade e quererem fazer dessa prática um padrão a ser seguido.  O que constatamos é que em muitos casos tais procedimentos beiram à hipocrisia, pois Judas também teve semelhante pensamento ao ver Jesus tendo seus pés lavados com um perfume caro: "Por que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários" (Jo 12.5). O fim da história de Judas se tornou conhecido de todos.

A falta de comprometimento com o evangelho de Cristo tem exposto a vulnerabilidade da igreja visível. É claro que o sem número de falsos líderes, lobos vorazes, que só visam a lã das ovelhas, tem colaborado para isso. Não devemos esmorecer, o bom combate não pode ter trégua, pois há uma promessa de que as  portas do inferno jamais prevalecerão.

Assim, os semeadores de joio, agentes do mal, verão seus intentos frustrados e, a “graça barata”, neutralizada pelos semeadores de trigo,  “graça preciosa”, a qual Bonhoeffer definiu: “Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao ser humano, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho –“vocês foram comprados por preço”– e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus.


Soli Deo Gloria!

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