terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ARROZ, FEIJÃO E PAZ



por Delmo Fonseca |

“Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranquilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas” (Pv 17.1 NVI).

Algumas pessoas são estrategicamente hiperbólicas ao se expressarem, isto é, fazem uso do exagero para evidenciar um contraste. No referido provérbio de Salomão, percebemos claramente sua intenção em chamar a atenção para o fato de que a ostentação dificilmente tem a companhia da paz. A ostentação atrai olhares gananciosos, invejosos e todo o tipo de cobiça. Salomão, diferentemente de seu pai Davi, cresceu na opulência. Davi foi pastor de ovelhas, viveu uma vida simples. Já Salomão nasceu e cresceu num palácio. A mesa da refeição, decerto, longe de ser um espaço de comensalidade, representava para ele um espaço de disputa, competitividade, pois os demais irmãos também buscavam a atenção do pai.

Salomão, nestas horas, ao refletir sobre o que é mais importante num lar, concluiu que a paz e a tranquilidade eram fundamentais, ainda que a comida fosse a mais simples das comidas. O que é mais simples do que um pedaço de pão? E quando esse mesmo pedaço de pão sequer pode ser umedecido, mergulhado numa xícara de café ou num copo de leite? Ainda assim, havendo paz e tranquilidade, para Salomão se fazia preferível.

Mas esse contraste pode ser apenas uma coisa do passado quando observamos os valores do mundo moderno. Há quem pense o contrário: não importa que faltem paz e tranquilidade, que falte respeito e sobrem brigas e desavenças no lar; contanto que não falte dinheiro para suas ostentações, para o consumo no shopping, viagens, festas e todo tipo de entretenimento.
Não seria a “teologia da prosperidade” um reflexo do espírito do mundo? Atraídas por um discurso falacioso e fantasioso, um sem número de pessoas caem nas teias de líderes religiosos que apregoam uma vida bem-sucedida materialmente, ainda que dissociada da paz e do temor a Deus. Portanto, não é de se entranhar o fato de que o evangelho puro e simples sequer é conhecido, muito menos valorizado. Com isso, paz e tranquilidade tornaram-se artigos de luxo.

Por outro lado, ninguém pode pensar que a paz e a tranquilidade pedem como requisito uma condição de penúria. Ao constatar que “melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranquilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas”, Salomão destaca o quanto a harmonia no lar precede a necessidade da ostentação. Entretanto, em tempos de rede social o “ter para mostrar” exacerbou ainda mais esta necessidade, pois a fantasia realça uma vida de  sorrisos, banquetes, aparência de felicidade. E a paz? Quem se arrisca a mostrar nas redes sociais uma vida de paz e tranquilidade tendo ao fundo uma mesa apenas com arroz e feijão?

Quem busca uma vida de paz consegue abrir mão de uma condição de opulência regada a brigas, pois sabe que o Espírito de Deus não se coaduna com tal situação. Seria toda opulência uma fonte de brigas? Certamente não, da mesma forma que o pão seco, em si mesmo, não garante uma vida tranquila.  Como, então, conciliar a paz e a tranquilidade com uma situação privilegiada?

Em sua carta a Timóteo o apóstolo Paulo responde: “Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a sua esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que nos concede abundantemente todas as coisas para delas gozarmos; que pratiquem o bem, que se enriqueçam de boas obras, que sejam liberais e generosos, entesourando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a verdadeira vida” (1Tm 6.17-19).

Um lar em que há banquetes acompanhados de brigas, é um lar onde o Espírito Santo não se faz presente, logo não poderá haver paz e tranquilidade. No entanto, num lar em que o menu do dia se resume a um prato de arroz e feijão, porém com a presença do Senhor, com certeza haverá harmonia. Em síntese, a Bíblia mostra que da simplicidade pode-se extrair a paz... a verdadeira paz. 

Soli Deo Gloria!

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