sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

AO CHEIRO DAS ÁGUAS


por Delmo Fonseca |

A dor nem sempre é mensurável. Aliás, quando a dor  se apresenta as palavras fogem, restando em muitos casos apenas gemidos. O mundo contemporâneo propõe uma solução artificial para o sofrimento quando incentiva o ser humano a buscar o prazer a qualquer preço. A receita apresentada pelo mundo para este estado perene de prazer, o que também é chamado de felicidade, consiste num olhar  do indivíduo apenas para si mesmo. Segundo o curso do mundo, desde os tempos de Aristóteles, o bem supremo do ser humano é a felicidade. Obviamente que a intenção do filósofo grego não era associar seu conceito de felicidade, pautado no aprimoramento das virtudes morais e intelectuais ao longo da vida, ao hedonismo, outra ideia grega que propunha o prazer como bem supremo.

O mundo, no entanto, apregoa que ser feliz é viver prazerosamente, ou seja, quanto mais prazer, mais felicidade. Isto significa que não há espaço para a dor. Com isso segue-se a pergunta: é razoável que alguém escolha sofrer? Embora, patologicamente, há quem opte pelo sofrimento como meio de sentir prazer, o que constatamos é que a dor surge, por mais que a evitemos.

Mas esta reflexão visa lançar luz sobre a seguinte questão: o que fazer quando a dor parece não ter fim? O que fazer quando, em nossas aflições, o silêncio de Deus fala mais alto do que nossa esperança? Ainda sobre a dor, o salmista lembra que “muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas” (Sl 34.18). Outra questão: o Senhor livra o justo de todas as suas aflições a tempo deste justo não se desesperar? Livra-o paulatinamente ou de uma só vez?

Ainda a respeito das aflições (cf. Jo 16.33), o Senhor Jesus nos informou que no mundo as teríamos inevitavelmente, mas que também tivéssemos bom ânimo, afinal ele venceu o mundo. Logo, podemos inferir que as Escrituras nos advertem a respeito desta realidade, qual seja, o bem supremo não é a felicidade nem o prazer. Não obstante, somos desafiados a encarar esta realidade com bom ânimo, conforme nos ordenou o Senhor da Glória. Em outras palavras, somos orientados a passar pelas aflições sem a companhia do desespero.

De antemão devemos reconhecer que não é fácil. Diante da aflição nos flagramos impotentes, fracos. Adversidades tais como: desemprego, enfermidade, problemas familiares e financeiros, associados ao desânimo espiritual, minam nossa resistência. Nessas horas o inimigo de nossas almas ainda encontra brechas para lançar em nossa direção seus dardos inflamados. Daí perguntamos: o que fizemos de errado para estarmos nesta situação? O que mais precisamos fazer para agradar a Deus? Nossas perguntas em nada refletem o estado de bom ânimo requerido por Jesus.

Frente a uma situação de desespero, a Bíblia registra que Jó observara que uma planta tem mais sorte do que o ser humano neste mundo: “O homem, nascido de mulher, vive breve tempo, cheio de inquietação. Nasce como a flor e murcha; foge como a sombra e não permanece, (...) Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus rebentos. Se envelhecer na terra a sua raiz, e no chão morrer o seu tronco, ao cheiro das águas brotará e dará ramos como a planta nova. O homem, porém, morre e fica prostrado; expira o homem e onde está?” (Jó 14.1,2 e 7-10).

Será que Jó estava correto em sua observação? Não podemos nos esquecer de que estas eram palavras de um homem aflito. Decorrido o tempo de Deus, Jó pôde conhecer a fidelidade do Criador. Sendo assim, temos mais este desafio: esperar o tempo de Deus. O salmista esperou: “Coloquei toda minha esperança no Senhor; ele se inclinou para mim e ouviu o meu grito de socorro” (Sl 40.1); o patriarca também: “Abraão, contra toda esperança, em esperança creu, tornando-se assim pai de muitas nações...”(Rm 4.18).  A este respeito o apóstolo Paulo concluiu: “E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu” (Rm 5.5).

Não pensemos que Deus fica indiferente ao clamor de seus filhos, que diante da dor sequer sabem orar como convém, “porque ele é bom; o seu amor dura para sempre” (Sl 106.). É certo que há esperança para todo aquele que nele confia, pois se ao cheiro das águas, de um simples tronco cortado pode brotar folhas novas, muito mais pode acontecer aos que esperam no Senhor. “Desde os tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, e olho nenhum viu outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele esperam” (Is 64.4).


A estes, os que creem e por isso esperam no Senhor, como categoricamente nos ensina o Catecismo Maior de Westminster, “o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. 

Soli Deo Gloria!

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