terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A LÓGICA DE SARAH


por Delmo Fonseca |

Ainda que uma pessoa não saiba definir razoavelmente o que é lógica, no seu sentido filosófico, saberá identificar se determinada proposição faz sentido ou não. O fato é que mesmo antes de os gregos sistematizarem o raciocínio lógico, outras sociedades já possuíam critérios definidores do que era provável ou improvável. Suponha a seguinte situação:  qual a chance de uma mulher estéril, beirando os noventa anos, ficar grávida? Naturalmente, as chances são “quase” zero. O “quase” diz respeito ao outro lado da questão a ser analisada numa outra oportunidade. Antes, veja como a esposa de Abraão (ainda Abrão) reagiu ao saber da promessa de Deus feita  a seu marido: “Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos; tendo, porém, uma serva egípcia, por nome Agar, disse Sarai a Abrão: Eis que o SENHOR me tem impedido de dar à luz filhos; toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com filhos por meio dela. E Abrão anuiu ao conselho de Sarai” (Gn 16.1,2).

Sarai era esta mulher de quase noventa anos. Ao raciocinar sobre a probabilidade de Abrão vir a ser pai de uma grande descendência por seu intermédio, a conclusão a que chegou pareceu óbvia; “não terei condições, mas minha serva, bem mais jovem do que eu, poderá fazê-lo”. Sarai agiu racionalmente, porém sem fé. Da mesma maneira, em inúmeras ocasiões, seguimos a lógica de Sarai. Diante de situações em que uma solução alentadora se mostra improvável, usamos a lógica de Sarai. Diante dos zombadores e dos que torcem secretamente contra nós, como agimos? Segundo a lógica de Sarai. Em meio ao deserto, sob condições desfavoráveis, como reagimos? À maneira de Sarai.

O objetivo desta reflexão não é analisar as consequências do ato de Abrão, o que poderá ser feito em outro momento; antes, o propósito é mostrar como a razão alienada da vontade de Deus pode ser prejudicial. As Escrituras mostram que Abraão (não mais Abrão) aprendeu a lição, pois ao ser questionado por Isaque, filho da promessa, sobre a falta do cordeiro para o sacrifício, sua resposta foi taxativa: “Deus proverá”. Se partirmos da lógica de Sarai, a pergunta do jovem Isaque fazia todo o sentido: “Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? ” (Gn 22.7).

Viver pela fé é um desafio. Olhar para o horizonte e ter à sua frente somente as promessas de Deus é uma experiência que foge à lógica humana. Mas aprendemos com os heróis da fé que a vida com Deus é assim. Há inúmeros exemplos que nos confirmam esta verdade. Por seguir a lógica de Sarai, um sem números de crentes permanecem imaturos na fé. Estes buscam uma lógica, um sentido prático para estarem na igreja. Pensam que frequentar uma igreja os blinda de problemas, angústias, dissabores. Ao perceberem que mesmo na caminhada com Deus os desafios surgem, o ato seguinte é o abandono da comunhão.

Se ao menos prosseguissem crendo nas promessas de Deus, o que exige renúncia à lógica do mundo, conheceriam seu atributo Provedor (Jeová-Jireh). Assim aconteceu com Sara (não mais Sarai) conforme nos informa o autor da Carta aos Hebreus: “Pela fé, também, a própria Sara recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (Hb 11.11). A lógica de Sara, assim como a de Abraão, se alinhou com o propósito de Deus.

Para que a nossa lógica também se alinhe ao propósito do Pai, antes devemos conhecer suas promessas. Daí a necessidade de conhecermos o Evangelho, aplicá-lo em nossa vida cotidiana, submetermo-nos ao senhorio de Cristo. Estaremos com isso isentos de problemas? De forma alguma. Assim continuaríamos sob a influência da lógica de Sarai.  Porém ao crermos que “em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2Co 4.8,9), estaremos num novo patamar, vivendo a partir da mesma lógica de Sara.

Soli Deo Gloria!



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