terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A CUSTOMIZAÇÃO DA FÉ


por  Delmo Fonseca |

A nossa mania de aportuguesar termos estrangeiros sempre suscitou acaloradas discussões. De um lado há quem veja nesse fenômeno a possibilidade de enriquecimento da língua; de outro, não são poucos os que veem nesse estrangeirismo uma excessiva interferência em nossa cultura. Daí as comidas lights, as bebidas diets, os shows, os shoppings, os tickets, o marketing, o gospel, por exemplo.

Nesse contexto pode-se observar o acréscimo da palavra customização (do inglês customization) ao nosso vocabulário. Seria muito mais simples usar os verbos adaptar, adequar ou até mesmo personalizar, mas customizar parece ser algo mais específico. Customizar é adequar alguma coisa de maneira única ao gosto da pessoa. Em tempos de individualismo exacerbado, nada pode parecer comum, isto é, pertencente a todos ou a muitos. A regra é ser singular, exclusivo.

De carros a sapatos customiza-se de tudo, adequa-se ao gosto do freguês qualquer coisa. Mas em se tratando do evangelho, como podemos entender esse fenômeno? Não é novidade para ninguém a existência de um “mercado da fé”, que busca adequar a Palavra ao gosto de cada um. Nesse caso, prega-se um evangelho sem cruz, descompromissado. Aliás, uma das marcas da sociedade contemporânea é a falta de comprometimento. Há um sem número de jovens que resistem em deixar a casa dos pais porque não querem assumir o compromisso de pagar suas contas, constituir uma família etc. Da mesma maneira, nas igrejas, muitos crentes querem as bênçãos dos céus sem ter que se comprometerem com a obra de Deus. “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt 15.8).

A busca por uma fé customizada, que se adapte ao gosto do crente descompromissado aumenta a cada dia. Não é raro encontrar quem ore pedindo a Deus uma ajudinha na hora do sorteio da loteria, quem ache natural ser um crente “desigrejado”, quem queira fazer da igreja um clube ou um espaço de entretenimento. A justificativa é o seguinte: “Deus me entende”, “Deus conhece o meu coração”, “Deus me ama do jeito que eu sou”. Será?

A fé customizada é ecumênica, atende às exigências do politicamente correto, procura se ajustar às demandas das minorias. Diferentemente do evangelho de Cristo, que é universal, a fé customizada é individual. Pode-se fazer meditação transcendental durante a semana e cantar no coral da igreja no domingo. Para os costumizadores, as Escrituras possuem valores relativos. Assim, é conveniente a leitura que inspira proteção e gera otimismo. No mais, os livros de autoajuda complementam a vida devocional.

A fé customizada apregoa: “pare de sofrer”, “o que importa é ser feliz”, “é só vitória”. Com isso, o pecado é relativizado e o mal não é visto como tão mau assim, pois o yin yang ensina que o positivo não vive sem o negativo e vice e versa. A cruz é apenas simbólica e a graça, ah sim, como diria Bonhoeffer, uma “graça barata”.

O Evangelho de Cristo, por outro lado, exige renúncia, autonegação e comprometimento com o reino de Deus: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? ” (Mt 16.24, 26). Apenas os inimigos da cruz de Cristo é que pressupõem uma fé customizada, moldada ao gosto pessoal de cada crente. Uns até dizem: “A minha cruz é de isopor e tem rodinhas.” A verdade é que não há parâmetro para tamanha falta de reverência.

Concluimos que a fé customizada é uma espécie de rebeldia à Palavra de Deus. O ser humano, desde o princípio, insiste em moldar a realidade ao seu gosto pessoal. Este é o espírito do mundo. Porém, as Escrituras nos advertem: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2).

Certamente não é da vontade de Deus que cada um tenha uma fé moldada a seus próprios interesses, mas que todos abracem o único evangelho: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16).

Soli Deo Gloria!


Nenhum comentário:

Postar um comentário