quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

SOBREVIVENDO AO DESERTO


por Pr. Delmo Fonseca |

"Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho nos telhados" (Sl 102.6,7)

A sensibilidade de Davi o capacitava a transformar o prosaico em poético. Explico: o aspecto prosaico da vida nos remete a experiências dolorosas. O povo hebreu pôde perceber este aspecto enquanto atravessava o deserto. O salmista, por sua vez, vivenciava duas situações preocupantes: sua enfermidade e a fragilidade da nação.

Ainda assim, Davi encontrou na poesia a melhor maneira de expressar sua aflição: “Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho solitário nos telhados”. Ele recorre à metáfora, figura de linguagem que se firma como a ferramenta dos poetas. Não satisfeito, se compara a três aves: pelicano, coruja e pardal.

Analisemos o pelicano: é uma ave extremamente adaptada ao ambiente marinho, se alimenta e vive praticamente toda a vida na água, retornando à terra apenas para aninhar. Um pelicano no deserto é um pássaro fora de seu habitat natural, suscetível às imposições do lugar, como calor e falta de comida.

Por livre vontade um pelicano não procuraria o deserto. Tal qual esta ave marinha, Davi se via numa situação que não escolhera. “Como sombra que declina, assim os meus dias, e eu me vou secando como a relva” (v. 11). Eis a súplica de um homem sofredor. Aliás, o Salmo 102 é conhecido como a oração de um aflito que, quase desfalecido, derrama o seu lamento diante do Senhor.

Assim acontece conosco quando percebemos que o deserto é a realidade na qual fomos lançados. Isso mesmo: às vezes somos lançados no deserto. É quando, à semelhança do salmista, nos sentimos como um pelicano longe do mar, das águas acolhedoras, fonte de alimentos.

No deserto da vida sofremos com o calor da injustiça, com a fome da paz e a sede de alegria, mas temos um alento: “Não terão fome nem sede, a calma nem o sol os afligirá; porque o que deles se compadece os guiará e os conduzirá aos mananciais das águas” (Is 49.10).

O Senhor Jesus Cristo é o nosso manancial. Nele encontramos a vida que vale a pena a ser vivida, o caminho que vale a pena ser percorrido, a sombra na qual vale a pena sentar e descansar. Em Cristo podemos perceber que o deserto, embora prosaico por natureza, pode também assumir um aspecto poético.

Por isso devemos orar, derramar nosso coração diante do Pai a fim de aprendermos mais a respeito de sua vontade: “Clama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes” (Jr 33.3)


Soli Deo Gloria!



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

O MAL NÃO DESCANSA



por Delmo Fonseca


“... os filhos deste mundo são mais sagazes para com a sua geração do que os filhos da luz”.  Lc 16.8

Por que os bons, às vezes, se cansam de fazer o bem e os maus nunca se cansam de fazer o mal? Jesus afirma que os filhos deste mundo são mais astutos do que os filhos da luz. Os filhos deste mundo são aqueles que só se ocupam das coisas terrenas. Para eles a vida se resume a este mundo. E qual a consequência disso? Eles não temem a Deus porque não acreditam na existência de Deus. E por não acreditarem em Deus se sentem à vontade para fazerem tudo o que desejam visando sempre o próprio interesse. O escritor russo Fiódor Dostoiévsk destaca em um de suas obras que “se Deus não existisse tudo seria permitido”. E é assim que os filhos deste mundo vivem: como se Deus não existisse. 

Por não crerem em Deus, sentem-se à vontade para praticar todo tipo de maldade: corrompem e se deixam corromper, matam, roubam, mentem, enganam o tempo todo, querem levar vantagem em tudo. Não há trégua, pausa para o mal. Jesus também alerta para o fato de que “o ladrão vem apenas para roubar, matar e destruir” (Jo 10.10). Em outras palavras, o mal não descansa.

Por outro lado, os filhos da luz creem que Deus é o “Pai das luzes” (Tg 1.17). E porque creem na luz, buscam a luz. “Falando novamente ao povo, Jesus disse: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 1.5). O Senhor Jesus veio nos livrar da influência dos filhos deste mundo: “Ele nos libertou do império das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado.” (Cl 1:13). O apóstolo João nos adverte: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2.15). 

Retornando ao que falamos no início a respeito da natureza dos filhos deste mundo, lembramos que estes vivem como se Deus não existisse. Sendo assim, vivem para si mesmos, só visam o próprio interesse e em momento algum levam em consideração a vida do outro. Se preciso roubam, matam e destroem. Eles não se cansam de praticar o mal porque o mal não descansa. Os filhos da luz, diferentemente destes, se melindram com muita facilidade. Reclamam porque não recebem reconhecimento e pensam em desistir ante o primeiro obstáculo. A este respeito o apóstolo Paulo nos adverte: “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gl 6.9). 

Não se cansar de fazer o bem. Este é o desafio dos filhos de Deus.


Soli Dei Gloria!

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O MUNDO É UM ABISMO



por Delmo Fonseca |


Quando se pensa em consumismo, geralmente o que vem à baila é o entendimento de que este se resume a um modo de vida orientado por uma desenfreada aquisição de bens ou serviços, ainda que desnecessários. No entanto, o foco se direciona para o ser humano que consome e esquece-se que este mesmo ser humano é consumido. Eis o paradoxo: o ser humano é consumido na medida em que consome.

A natureza humana, a exemplo da sanguessuga e suas filhas, se mostra cada vez mais insaciável, nada é o bastante. “A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem: Basta! A sepultura; a madre estéril; a terra que não se farta de água; e o fogo; nunca dizem: Basta! (Pv 30.15-16). Vivemos num tempo em que a expressão “basta” fora relegada a segundo plano; pois o que está em evidência é “mais, sempre mais”. Mais prazer, mais sapatos, mais crédito no cartão para consumir, mais adrenalina, mais sexo, mais festas, mais viagens, mais dinheiro.

Esse espírito consumista contraria frontalmente a Palavra de Deus, que diz: “Não andeis ansiosos de coisa alguma” (Fp 4.6). A ansiedade traduz o espírito do mundo, juntamente com a ganância e a cobiça. O espírito do mundo é um abismo que consome o ser humano, suga suas energias, seu vigor. O Livro de Provérbios (27.20) registra que “o inferno e o abismo nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem”. Até mesmo Friedrich Nietzsche - um filósofo abismado - constatou: “Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

O ser humano segue olhando para o abismo: uma criança, por exemplo, em tenra idade já faz exigências descabidas, fruto de uma ansiedade que tende a se tornar crônica. Esta criança, ainda que os pais não se deem conta, está sendo engolida pelo mundo. A televisão, o smartphone, as redes sociais são tentáculos deste abismo que nunca se farta. Com isso, falta tempo para o diálogo entre pais e filhos, marido e mulher. Falta tempo para a oração, falta tempo para a adoração.

O príncipe deste mundo bem sabe o quanto seu fim se aproxima, por isso seu empenho, sua astúcia consiste em engendrar situações que possam povoar ainda mais esse abismo. Como podemos constatar esta realidade? A lógica do mundo, que estabelece o indivíduo como medida de si mesmo, dita comportamentos e novos valores, que ao sabor do relativismo moral rechaça qualquer interferência da cosmovisão cristã. O mundo já entrou em muitas igrejas, já consome a maior parte do tempo de pastores e ovelhas. O mundo é um abismo e o abismo nunca se satisfaz.

Mas nem tudo está perdido. O apóstolo João nos orienta a viver neste mundo sem ser consumido por ele:                                                         
“Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1Jo 2.15-17).

Não há meio termo: ou o filho de Deus se deixa consumir pelo mundo e não se tem o amor do Pai, ou se volta para o Senhor e despreza o mundo a fim de que se cumpra esta intermediação de Jesus junto ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou” (Jo 17.15-16).


Soli Dei Gloria!


sábado, 10 de fevereiro de 2018

UM LEÃO AO DERREDOR



por Pr. Delmo Fonseca |

Nas Escrituras encontramos um sem número de referências àquele que consideramos o rei dos animais. Constatamos que estas menções não são gratuitas, pois o leão sempre exerceu fascínio sobre o ser humano. O leão, como símbolo, aparece em brasões de reis, automóveis, escudos de times de futebol etc. Até mesmo uma famosa companhia cinematográfica faz uso da imagem de um leão rugindo em sua logomarca. Logo, não é de se estranhar a associação que o apóstolo Pedro faz entre o maioral dos felinos e o diabo. “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8).

Por que o adversário de nossas almas é comparado a um leão? Ora, o “maioral dos demônios” (Mt 12.24), pela sua astúcia e estratagemas não poderia ser comparado à lebre ou ao esquilo, mas ao leão ou à serpente. Se não, vejamos: um leão, a exemplo de um grande estrategista, sempre se posiciona de maneira contrária ao vento. Ele passa um tempo escondido, espreitando e “estudando” a presa, silenciosamente, para no momento certo empreender o ataque. Assim que o intento é realizado, qual seja, abater a presa, o leão solta seu rugido a fim de chamar o restante do bando. Sem a presa o leão “quase” não ruge: “Bramirá o leão no bosque, sem que tenha presa? Fará ouvir a sua voz o leão novo no seu covil, se nada tiver apanhado?” (Am 3.4). 

Propositadamente destacamos o “quase” porque há um caso em que o leão ruge sem a presa. Trata-se do leão velho. Este, por não possuir a força de outrora, não poder mais perseguir a presa, põe em prática outro plano. Seu rugido tende a apavorar os animais mais frágeis, que em dado momento sucumbem. O rugido do leão velho é incessante, pois ele cerca a presa com o intuito de cansá-la e derrotá-la. “Perece o leão velho, porque não tem presa; e os filhos da leoa andam dispersos” (Jó 4.11). 

O apóstolo Pedro não traçou um paralelo entre o leão e o diabo à toa. Será o adversário um leão jubado ou um leão velho? Ser sóbrio e vigilante, como nos aconselha Pedro, também significa “não pagar pra ver”. No entanto, muitos ignoram esta recomendação e vivem como se o mundo não fosse um mundo mau, tenebroso; como se o mundo não tivesse um príncipe. Em outras palavras, o crente brinca de ser crente mas o diabo nunca brinca de ser diabo. “Estamos cientes de que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno” (1Jo 5.19). 

O apóstolo Paulo nos admoesta: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo” (Ef 6.11). A conclusão não poderia ser outra: o leão ruge ao derredor e muitos se deixam levar por seu bramido. Quantos relacionamentos enfraquecidos, famílias desestruturadas, corações partidos, lares desfeitos e vidas ceifadas porque aquele que “veio roubar, matar e destruir” fora simplesmente ignorado. Por meio da Palavra nos fortalecemos, pois permanecemos cada vez mais unidos ao Pastor e Bispo das nossas almas, Cristo Jesus (1Pe 2.25).

Assim, nos sentimos encorajados e nenhum rugido fará eco em nossas vidas, pelo contrário, nos tornará ainda mais vigilantes, conforme nos orienta Tiago (4.7), o irmão do nosso Senhor: “Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”


Soli Deo Gloria



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

SOBRE PROFECIAS E "PROFETADAS"


por  Delmo Fonseca |

Os movimentos religiosos são pródigos em apresentar novidades. Há novidades do lado de lá e novidades do lado de cá, se considerarmos este lado de cá como o dos evangélicos brasileiros. Por ora analisemos uma das novidades do lado de cá: as tais “profetadas”. Este é um termo jocoso muito utilizado por aqueles que questionam a legitimidade dos irmãos e irmãs (“vasos”) que vez ou outra pronunciam a expressão “o Senhor me faz saber que…”

A partir do enunciado “o Senhor me faz saber que…”, segue-se um rosário de “visões”, “revelações” e o “manto de Jeová”, tudo advindo do Senhor. Há quem chame de profecias as famigeradas “profetadas”, tais como: “O Senhor me faz saber que… o irmão terá uma grande vitória no trabalho”; “O Senhor me faz saber que… a enfermidade da irmã sarará daqui a dois dias”; “O Senhor me faz saber que… um inimigo se levantará contra sua unção” etc.  Certa feita, ao visitar seu pai que estava internado, um amigo resolveu entrar numa congregação próxima ao hospital a fim de ouvir uma palavra que consolasse seu coração, pois  havia uma suspeita de que seu ente querido talvez não pudesse resistir ao procedimento cirúrgico. Tão logo esse amigo adentra o local e se acomoda na primeira cadeira disponível, um irmão se aproxima e diz: “Deus manda te dizer que entrará com providência e seu patrão irá considerar seu pedido”. Esse meu amigo saiu do recinto um tanto atordoado porque ele não tinha patrão, era um profissional liberal bem sucedido. Numa das conversas que tivemos a respeito pude apresentá-lo a um universo desconhecido para muitos, o dos “profetas” de plantão. Esse amigo fora vítima de uma “profetada”.

No Evangelho de Mateus o Senhor Jesus nos orienta a acautelar, isto é, nos precaver contra os falsos profetas. A este respeito John Stott comentou: “Ao dizer às pessoas que tivessem ‘cuidado com os falsos profetas’ (Mt 7.15), Jesus obviamente assumiu que eles existiam. Não faz sentido você pôr um alerta no portão do seu jardim: ‘Cuidado com o cão!’, se tudo que tiver em casa for um casal de gatos ou um periquito australiano. Não. Jesus alertou seus seguidores sobre os falsos profetas porque eles já existiam”.  

Na Bíblia há sinais de alerta por todos os lados concernentes a impostores, homens e mulheres que falam falsamente em nome do Senhor. Jeremias nos dá um exemplo: “E disse-me o Senhor: Os profetas profetizam mentiras em meu nome; não os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei. Visão falsa, adivinhação, vaidade e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam” (Jr 14.14). O apóstolo João nos dá outro exemplo: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1Jo 4.1).

Poderia enumerar muitas outras referências que tratam deste tema, no entanto, aproveito a sugestão do evangelista e apresento a questão: como conseguiremos provar se um espírito vem de Deus ou não? Já em Deuteronômio encontramos a resposta: “Mas o profeta que tiver a presunção de falar em meu nome alguma palavra que eu não tenha mandado falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá. E, se disseres no teu coração: Como conheceremos qual seja a palavra que o Senhor falou? Quando o profeta falar em nome do Senhor e tal palavra não se cumprir, nem suceder assim, esta é a palavra que o Senhor não falou; com presunção a falou o profeta; não o temerás” (Dt 18.20-22).

A pergunta que não quer calar: o “manto de Jeová” entregue por um “vaso ungido” pode ser de Deus? Eis o “mistério”. Se você não entendeu o “evangeliquês” farei a tradução:  a “revelação” advinda do “profeta” pode ser de Deus? Não dá para compreender”.  A verdade é que tudo isso não passa de um modismo, pois a revelação do Senhor não visa este ou aquele indivíduo em particular, esta ou aquela demanda pessoal. Por seu aspecto sobrenatural, a profecia é sempre uma manifestação espontânea da parte de Deus através de seus porta-vozes. E o Senhor fala unicamente por meio das Escrituras. Sendo assim, conclui-se que Deus não nos dá uma porção mágica para vencermos as dificuldades, mas princípios para vivermos n’Ele e para Ele, apesar das dificuldades.

E por que a cada dia aumenta a busca pelas “profetadas”? Porque muitos não querem um compromisso com Deus, mas se servirem de Deus. Desta forma torna-se mais conveniente buscar um atalho, alguém que possa prever os acontecimentos, facilitar as coisas. Tal comportamento observávamos em demasia nos movimentos religiosos do lado de lá, mas agora sobram exemplos do lado de cá. Mas este fenômeno já estava previsto nas Escrituras: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, segundo os seus próprios desejos juntarão mestres para si mesmos” (2Tm 4.3).

Talvez você pense que os “mestres das profetadas” sejam os irmãos que dançam e sapateiam ao som de um “reteté”, porém digo que estes são apenas irmãos entusiasmados. Os “mestres da profetadas” se autointitulam “homens ungidos”, que não podem ser questionados e ter seus espíritos provados.  Relembremos a orientação de João: “Amados, não creiais a todo espírito, mas provai se os espíritos vêm de Deus; porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo” (1Jo 4.1).  Veja: os falsos profetas não ficam enclausurados em suas pequenas congregações, mas saem pelo mundo, querem ganhar o mundo, iludir um número cada vez maior de pessoas. Não é de se admirar o quanto são megalômanos, pois o engano precisa ser em nível global.

Não se deixe levar por ventos de doutrinas, mas acolha a Palavra de Deus, a Palavra revelada como única regra de fé e prática.  Assim afirmou Lutero: "Fiz uma aliança com Deus: que Ele não me mande visões, sonhos, nem mesmo anjos. Estou satisfeito com o dom das Escrituras Sagradas, que me dão instrução abundante e tudo o que preciso conhecer tanto para esta vida quanto para o que há de vir".  Apanhou o manto?

Soli Deo Gloria!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

NELE FIRMAMOS NOSSOS PASSOS

 
por Delmo Fonseca |

Ele não permitirá que teus pés vacilem; aquele que te guarda não se descuida. Sl 121.3

Pés vacilantes produzem um desequilíbrio no corpo. O andar claudicante, manco, denuncia esse desajuste e desarmonia. Há casos em que um simples passo, para quem sequer pode ficar de pé, já se faz motivo de muita alegria. A Bíblia narra no livro dos Atos dos Apóstolos (3.1-8), que “Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona. E era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. O qual, vendo a Pedro e a João que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola. E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós. E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa. E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram. E, saltando ele, pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus.”

Esse episódio nos coloca na direção do entendimento que queremos compartilhar: à semelhança de um corpo claudicante, nossa alma também carece de ajustes a fim de darmos passos firmes no caminho que conduz à vida. Pedro e João tinham plena certeza de quem eram e a quem serviam. Pedro, ao falar com o homem que lhe pediu esmola, respondeu: “Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram.” A promessa de vida consiste em termos passos firmes se quisermos seguir a Cristo. Quais os efeitos de um passo firme? “... seus pés e artelhos se firmaram. E, saltando ele, pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus.”

Uma fé que titubeia, vacila, não consegue se manter de pé. Pode-se dizer que uma fé claudicante, manca, faz a pessoa tropeçar ante o menor obstáculo. Era contra esta fé manca que o profeta Elias lutava: "Então se chegou a todo o povo, e disse: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o, e se Baal, segui-o. Porém o povo nada lhe respondeu" (1 Reis 18.21).

Elias queria que o povo tomasse uma posição, não ficasse em “cima do muro”, pois sabia que um pensamento dividido levaria ao insucesso. Da mesma forma esse raciocínio se aplica à graça de Deus. Não se pode acolher a graça como visão teológica e na prática desconsiderar o sacrifício vicário e perfeito de Cristo, “porque pela graça somos salvos, por meio da fé; e isto não depende de nós, é dom de Deus. Não depende das nossas obras, para que ninguém se glorie”(Ef 2.8-9).

Em suas cartas, o apóstolo Paulo nos assegura que é por meio da graça que firmamos nossa fé. Não há mais espaço para o mérito próprio revestido de religiosidade. “Porquanto, se é pela graça, já não o é mais pelas obras; caso fosse, a graça deixaria de ser graça”.
A graça firma nossos passos ao nos dar segurança, ao nos colocar sem véu diante de uma realidade espiritual denominada “reino de Deus”. Não há meio termo, não se poder servir a Deus e a homens, não se pode buscar o reino de Deus e ao mesmo tempo depositar as esperanças no reino dos homens. A razão de muitos de nós não vislumbrarmos uma vida de alegria e paz está no pensamento trôpego, na fé vacilante. “Não pense tal homem que receberá do Senhor alguma coisa. O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos” (Tg 1.7-8). Um coração dobre pode ser entendido como uma mente dividida, que produz pensamentos difusos, emoções dúbias, isto é, incertezas.

O nosso Deus e Pai, em comunhão com o Filho e o Espírito Santo, nos convida a uma renovação de pensamento onde o medo dê lugar à fé, pois sem fé é impossível agradá-lo. Com seu amor eterno, Deus nos acolhe em seus braços, sara nossas feridas, renova nossas esperanças, de modo que esta seja nossa oração: "Restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os nossos pés, para que não se extravie o que é manco, antes seja curado" (Hb 12.12-13).  Nele firmamos nossos passos.

Soli Deo Gloria!




HÁ UM BÁLSAMO EM GILEADE



por Delmo Fonseca |


 “Acaso não há bálsamo em Gileade?
 Ou não se acha lá médico?” – Jr 8.22.

A história de José é conhecida. Ainda jovem fora vendido por seus irmãos a uma caravana de ismaelitas a caminho do Egito. Os comerciantes vinham de Gileade, e os camelos transportavam bálsamo e outros artigos (Gn 37.25).  Esse breve relato indica o quanto o bálsamo de Gileade era muito valorizado no Oriente Médio. Tal preciosidade se dava pelo fato de suas propriedades serem cosméticas e terapêuticas.

A região de Gileade se caracterizava por suas montanhas ao leste do rio Jordão,  rica em florestas e pastagens, além do valioso bálsamo aromático, um líquido consistente que podia ser extraído das plantas, tornando-o exclusivo.  Quase sempre, peregrinos que seguiam para Jerusalém, encontravam em Gileade alívio e restauração para seus corpos cansados. O perfume exalado pelas plantas revigorava os viajantes.

Este preâmbulo se faz necessário para que possamos entender o questionamento do profeta Jeremias (8.22): “Acaso não há bálsamo em Gileade? Ou não se acha lá médico?” Antes mesmo de o profeta Jeremias constatar a condição de enfermidade espiritual de Israel,  Isaías já havia apresentado o seguinte diagnóstico: “Da sola do pé ao alto da cabeça não há nada são; somente machucados, vergões e ferimentos abertos, que não foram limpos nem enfaixados nem tratados com azeite” (Is 1.6).

Mesmo diante dessa realidade, o povo se negava a reconhecer suas mazelas, configurando assim num ato de soberba e desobediência. Mas Jeremias confrontava-o com a seguinte verdade: “Ninguém se arrepende de sua maldade e diz: ‘O que foi que eu fiz?’ Cada um se desvia e segue seu próprio curso, como um cavalo que se lança com ímpeto na batalha. Até a cegonha no céu conhece as estações que lhe estão determinadas, e a pomba, a andorinha e o tordo observam a época de sua migração. Mas o meu povo não conhece as exigências do Senhor” (Jr 8.6,7).

Jeremias nos lembra: O SENHOR é exigente. Ele nos aponta o caminho que devemos andar a fim de sermos curados. Mas o povo de Israel ignorava as exigências de Deus e se lançava nos braços da rebeldia. Em vez de buscar consolo e entendimento no Senhor, volta-se para a idolatria: "O Senhor não está em Sião? Não se acha mais ali o seu rei? " "Por que eles me provocaram à ira com os seus ídolos, com os seus inúteis deuses estrangeiros?" (Jr 8.19). O povo realmente estava doente e não reconhecia.

A impressão que temos é que nada mudou, pois o povo continua a sofrer por não conhecer sua própria enfermidade espiritual. Como no tempo de Jeremias, “o povo não conhece as exigências do Senhor. Cada um se desvia e segue seu próprio curso, como um cavalo que se lança com ímpeto na batalha”. Vão em busca de soluções mágicas a fim de tamponar certas feridas que são resultado de transgressões contra a Lei de Deus. Quando a solução está no arrependimento: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Temos em Cristo nosso bálsamo, alívio para nossas dores e cura para nossas enfermidades. A pergunta de Jeremias ainda ecoa: “Acaso não há bálsamo em Gileade? Ou não se acha lá médico?” O povo de  Israel, tendo bálsamo tão próximo, insistia em buscá-lo em outras terras; nós, tendo Cristo tão próximo, por que, muitas vezes, buscamos bálsamo nos ídolos modernos como o dinheiro, por exemplo? O tempo passa mas nossa tendência ao engano permanece.


Mas há um bálsamo em Gileade.  Sem que saibamos, muitas vezes somos surpreendidos como José, que no Egito já na condição de governador, recebera do seu pai, Jacó, “um pouco de bálsamo, um pouco de mel” (Gn 43.11). Semelhantemente Deus é nosso Pai e, Cristo é nosso bálsamo, nosso mel. Assim, temos a certeza de alívio e refrigério em nossa peregrinação, além de sempre que necessário, doce ao nosso paladar. 

Soli Deo Gloria!

GRAÇA BARATA: JOIO EM MEIO AO TRIGO


por Delmo Fonseca |

“Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” - Tito 2.11-12.

Num texto anterior abordamos o fato de que o mal não descansa. E continuamos frisando que os agentes do mal, segundo a própria natureza, cumprem seu papel sem mostrar sinais de fadiga, enfado ou desânimo. Por outro lado, os que poderiam estar lutando em prol do evangelho, se esmorecem ante a primeira dificuldade. Em duas ocasiões, nas cartas destinadas aos gálatas e aos tessalonicenses, o apóstolo Paulo orientou: “E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9), “Quanto a vocês, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts 3.13). Eis o paradoxo: os que são orientados a anunciar o evangelho, isto é, semearem trigo, correm o risco de abandonar a missão alegando cansaço ou falta de estímulo, enquanto os que semeiam joio e propagam uma “graça barata” nunca desanimam.

O termo “graça barata” foi designado por Dietrich Bonhoeffer, pastor e teólogo da Igreja Luterana da Alemanha, em referência  a uma fé estéril e inútil. "A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina comunitária, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado.”

Na atualidade temos observado uma crescente ousadia por parte dos semeadores de joio (“graça barata”) quando se trata de desqualificar a Noiva de Cristo. E  o que mais impressiona é que eles fazem isso distorcendo a preciosa graça de Deus. Tais oportunistas  têm arrastado mentes ingênuas, pois falam o que estas querem ouvir, aumentando assim o contingente dos “rebeldes sem causa”. O apóstolo Paulo também alertou: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada” (1 Tm 4.1,2).

Homens de mente cauterizada, eis o veredito do apóstolo Paulo. A mente cauterizada torna-se insensível, como se tivesse sido queimada a ferro em brasa. Qual a consequência? O evangelho perde seu efeito transformador, sua eficácia. Não bastasse isso, tais homens se voltam contra a Noiva de Cristo, que é o seu Corpo, atacando sua parte visível, isto é, a corporação formada por pessoas. Agostinho ensinou que a igreja é um corpus permixtum, significando que a igreja é um corpo misto (corpo visível e invisível). Justamente por isso, os semeadores de joio ao disseminarem uma “graça barata”, encarnam os agentes do mal ao se intitularem “desigrejados”,  por exemplo, negando a necessidade da koinonia, da comunhão in loco entre os irmãos em Cristo. Em Hebreus 10.25  temos a confirmação dessa necessidade: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia”.

 Quais os efeitos colaterais de um movimento como os “desigrejados”? Negação do princípio de autoridade, ênfase na autossuficiência, combate feroz ao ato, ainda que espontâneo, de contribuir com dízimos e ofertas, além de estabelecer uma forma particular de interpretar a Bíblia e praticar a fé. Daí o subterfúgio de muitos aos se aplicarem às obras de caridade e quererem fazer dessa prática um padrão a ser seguido.  O que constatamos é que em muitos casos tais procedimentos beiram à hipocrisia, pois Judas também teve semelhante pensamento ao ver Jesus tendo seus pés lavados com um perfume caro: "Por que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários" (Jo 12.5). O fim da história de Judas se tornou conhecido de todos.

A falta de comprometimento com o evangelho de Cristo tem exposto a vulnerabilidade da igreja visível. É claro que o sem número de falsos líderes, lobos vorazes, que só visam a lã das ovelhas, tem colaborado para isso. Não devemos esmorecer, o bom combate não pode ter trégua, pois há uma promessa de que as  portas do inferno jamais prevalecerão.

Assim, os semeadores de joio, agentes do mal, verão seus intentos frustrados e, a “graça barata”, neutralizada pelos semeadores de trigo,  “graça preciosa”, a qual Bonhoeffer definiu: “Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao ser humano, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho –“vocês foram comprados por preço”– e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus.


Soli Deo Gloria!

CURA-NOS, SENHOR, E SEREMOS CURADOS


por Delmo Fonseca |

É sabido que a Lei de Moisés proibia um leproso de se aproximar de qualquer pessoa saudável. Ainda assim, este deveria gritar de longe “imundo, imundo”, a fim de alertar a todos contra a contaminação. O que observamos no relato de Marcos (1.40) nos faz pensar profundamente no amor de Deus: “E aproximou-se dele um leproso que, rogando-lhe, e pondo-se de joelhos diante dele, lhe dizia: Se quiseres, podes purificar-me.” 

O evangelista destaca a atitude de um leproso galileu, que ao ver Jesus, também viu a oportunidade de deixar para trás toda a dor e sofrimento. Ele sabia que não podia se aproximar de qualquer um, mas Jesus não era “qualquer um”. O seu conhecimento a respeito de Jesus o faz apresentar-se diante do Senhor “rogando-lhe, e pondo-se de joelhos”. A noção de que não tinha direito de exigir nada de Deus, mas aceitar sua vontade o faz confessar: “Se quiseres, podes purificar-me.”

A partir deste contexto bíblico podemos constatar que a cura de uma enfermidade física, ainda que improvável aos olhos naturais, pode ser alcançada com mais brevidade se o coração já estiver rendido ao Senhor. A resposta de Jesus ao coração rendido deste leproso foi esta: “Quero, fica limpo. No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo” (Mc 1.41.42).

É certo que há muitos que precisam de um milagre, de um toque especial de Jesus em suas vidas, mas fica a pergunta: quantos, à semelhança do leproso, estão dispostos a se renderem, colocarem-se de joelhos diante de Cristo, reconhecerem sua condição de “enfermos” espirituais? Ou seja, quem está disposto a se render?

A Escritura nos garante que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente” (Hb 13.8). O que significa que sua disposição em nos ajudar permanece a mesma. No entanto, há que se considerar o fato de que só podemos nos aproximar dele por meio da fé. O leproso tinha fé. Esta não é resultado de um mero desejo, mas fruto de conhecimento. O leproso sabia quem era Jesus, conhecia as profecias a seu respeito, cria na sua autoridade. “Se quiseres, podes purificar-me.”

E por que há tanto sofrimento? No livro do profeta Oseias (4.6), o Senhor responde: “O meu povo sofre porque lhe falta o conhecimento”. Sem o conhecimento da Verdade, que se plenifica em Cristo, o que temos é escravidão, pessoas guiadas pelo medo, atraídas por promessas vãs, ludibriadas por falsos mestres. 

A experiência do leproso expressa a condição humana: estamos enfermos e precisamos de Jesus, o médico dos médicos. “Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento” (Mc 2.17). A nossa oração é para que o amor de Deus nos toque sempre, nos cure sempre a fim de que tenhamos uma vida espiritual saudável, como nos ensina o profeta Jeremias (17.14): “Cura-nos, Senhor, e seremos curados, salva-nos, e seremos salvos; porque tu és o nosso louvor”.


Soli Deo Gloria!


CORAÇÃO DE PEDRA, CORAÇÃO DE CARNE


por Delmo Fonseca |

“Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca…” – Mt 13.5

A parábola do semeador é uma das ricas ilustrações feitas por Jesus. A narrativa mostra que o Mestre conhecia muito bem o ofício de plantar e colher, além de também ser um exímio contador de histórias. Mas o que nos interessa em nosso texto é a parte em que a semente cai em solo rochoso. Há quase sempre uma camada de terra sobre esse tipo de solo, o que faz com que a semente lançada brote e se desenvolva por um pequeno intervalo de tempo. Ao se depararem com a camada rochosa as raízes se veem impedidas de continuarem sua trajetória. Elas não conseguem perfurar a rocha, logo não encontram água para sua sobrevivência. E a planta morre.

Jesus nos ensina que a semente que cai em solo rochoso não vinga, embora cresça rapidamente. Em termos espirituais o que é um solo rochoso? Podemos dizer que é o coração de pedra. Sim, há corações duros como uma rocha. No entanto esses corações enganam, pois rapidamente a semente brota, logo após definha e morre.

O evangelho de Cristo é uma semente. Muitos, ao ouvirem as boas novas da salvação, ao saberem da justificação e redenção pela fé, ao conhecerem o pacto da graça, ficam eufóricos e saem pelo mundo afora saltitantes de alegria. Contudo, ao sinal do primeiro problema, da primeira frustração, murcham e sucumbem. São “fogo de palha”. Por que isso acontece? Simplesmente porque a palavra se depara com um coração de pedra, o que impede o aprofundamento de suas raízes. O que se segue é que não há planta, fruto nem sementeira. 

As dificuldades da vida se assemelham ao sol que queima as folhas já murchas por falta de água no solo. Um coração de pedra não retém a água do Espírito, por isso as palavras se evaporam com muita facilidade. Os que creem em Jesus são comparados à terra fértil: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38).

Pode-se transformar um coração de pedra em coração de carne? Por meio da fé em Cristo, sim. Estes são os que se arrependem de suas obras más, do engano da autossuficiência, da rebeldia crônica. Assim, passam a viver pela fé tão-somente, convencidos de que seus méritos não contam para a salvação, aprofundam suas raízes ainda mais no conhecimento do evangelho de Cristo, experimentam uma vida nova, isto é, produzem frutos por meio do Espírito, não possuindo mais um coração de pedra, mas de carne.

Nestes também se cumpre a promessa do Senhor a fim de que a semente se desenvolva para a glória de Deus: “Então aspergirei água fresca e límpida, e ficareis purificados; e vos darei um novo coração e derramarei um espírito novo dentro de cada um de vós; arrancarei de vós o coração de pedra e vos abençoarei com um coração de carne” (Ez 36.25a-26).


Soli Deo Gloria!

AS ARMAS DA NOSSA MILÍCIA


por Delmo Fonseca |

“Nenhum soldado se deixa envolver pelos negócios da vida civil, já que deseja agradar aquele que o alistou” (2Tm 2.4 – NVI)

A ‘katana’ é uma lendária espada japonesa, típica dos antigos samurais, caracterizada por ter uma lâmina curva, de um único fio com um protetor circular  e um cabo longo a fim de acomodar as  duas mãos. Aos olhos naturais nenhuma outra espada supera a beleza e eficiência de uma ‘katana’. Contudo, o que os olhos naturais não conseguem vislumbrar, muito menos discernir, é que existe outra espada ainda mais eficaz, que por ser viva, também “é mais cortante que qualquer espada de dois gumes; capaz de penetrar até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é sensível para perceber os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12 - NVI). Essa descrição trata-se, obviamente, da Palavra de Deus.

Contra quem devemos manusear esta espada tão poderosa? Na Carta aos Efésios 6.12, o apóstolo Paulo é categórico ao afirmar que “a nossa luta não é contra pessoas, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais”. Uma vez que os adversários foram identificados, agora cabe uma outra pergunta: como lutar? Há quem  se aventure a manusear a Palavra de Deus, a espada do Espírito, de maneira mística, com orações “fortes” e ritos que beiram à magia. No fim fica atestado que tal tentativa se configura como mera tolice.

Posto isto, como se deve travar, então, essa batalha contra o mundo e seus dominadores? É sabido que todas as batalhas espirituais envolvem a autoridade e a aplicação das Escrituras, assim como raciocínios e argumentos teológicos. Foi o caso da luta travada entre Jesus e o diabo no episódio da tentação  (Mt 4.1-11). Em três ocasiões o Senhor afirmou “está escrito”. Ora, este exemplo deixa claro que a negligência no manuseio da Palavra é que traz a derrota na batalha contra os dominadores deste mundo de trevas e as forças espirituais do mal.

Com frequencia, o outro lado da força apresenta uma hermenêutica bíblica  e diversos conceitos teológicos distorcidos, o que contribui para desarmar um sem número de despreparados, que por se acharem autossuficientes, desconsideram as Escrituras como única regra de fé e prática. A consequência não poderia ser outra: o aumento da fileira de “crentes” não convertidos, inconstantes, relapsos, levados por todo vento de doutrinas e desconhecedores do evangelho. Para estes, qual a diferença entre uma espada ‘katana’ e uma faca de mesa se o desconhecimento do manuseio de ambas se assemelha?

Conclui-se que o conhecimento e a aplicação das Escrituras são as armas da nossa milícia, “pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os padrões humanos. As armas com as quais lutamos não são humanas; pelo contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas” (2Co 10.3,4 - NVI)


Soli Deo Gloria!

ARROZ, FEIJÃO E PAZ



por Delmo Fonseca |

“Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranquilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas” (Pv 17.1 NVI).

Algumas pessoas são estrategicamente hiperbólicas ao se expressarem, isto é, fazem uso do exagero para evidenciar um contraste. No referido provérbio de Salomão, percebemos claramente sua intenção em chamar a atenção para o fato de que a ostentação dificilmente tem a companhia da paz. A ostentação atrai olhares gananciosos, invejosos e todo o tipo de cobiça. Salomão, diferentemente de seu pai Davi, cresceu na opulência. Davi foi pastor de ovelhas, viveu uma vida simples. Já Salomão nasceu e cresceu num palácio. A mesa da refeição, decerto, longe de ser um espaço de comensalidade, representava para ele um espaço de disputa, competitividade, pois os demais irmãos também buscavam a atenção do pai.

Salomão, nestas horas, ao refletir sobre o que é mais importante num lar, concluiu que a paz e a tranquilidade eram fundamentais, ainda que a comida fosse a mais simples das comidas. O que é mais simples do que um pedaço de pão? E quando esse mesmo pedaço de pão sequer pode ser umedecido, mergulhado numa xícara de café ou num copo de leite? Ainda assim, havendo paz e tranquilidade, para Salomão se fazia preferível.

Mas esse contraste pode ser apenas uma coisa do passado quando observamos os valores do mundo moderno. Há quem pense o contrário: não importa que faltem paz e tranquilidade, que falte respeito e sobrem brigas e desavenças no lar; contanto que não falte dinheiro para suas ostentações, para o consumo no shopping, viagens, festas e todo tipo de entretenimento.
Não seria a “teologia da prosperidade” um reflexo do espírito do mundo? Atraídas por um discurso falacioso e fantasioso, um sem número de pessoas caem nas teias de líderes religiosos que apregoam uma vida bem-sucedida materialmente, ainda que dissociada da paz e do temor a Deus. Portanto, não é de se entranhar o fato de que o evangelho puro e simples sequer é conhecido, muito menos valorizado. Com isso, paz e tranquilidade tornaram-se artigos de luxo.

Por outro lado, ninguém pode pensar que a paz e a tranquilidade pedem como requisito uma condição de penúria. Ao constatar que “melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranquilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas”, Salomão destaca o quanto a harmonia no lar precede a necessidade da ostentação. Entretanto, em tempos de rede social o “ter para mostrar” exacerbou ainda mais esta necessidade, pois a fantasia realça uma vida de  sorrisos, banquetes, aparência de felicidade. E a paz? Quem se arrisca a mostrar nas redes sociais uma vida de paz e tranquilidade tendo ao fundo uma mesa apenas com arroz e feijão?

Quem busca uma vida de paz consegue abrir mão de uma condição de opulência regada a brigas, pois sabe que o Espírito de Deus não se coaduna com tal situação. Seria toda opulência uma fonte de brigas? Certamente não, da mesma forma que o pão seco, em si mesmo, não garante uma vida tranquila.  Como, então, conciliar a paz e a tranquilidade com uma situação privilegiada?

Em sua carta a Timóteo o apóstolo Paulo responde: “Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a sua esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que nos concede abundantemente todas as coisas para delas gozarmos; que pratiquem o bem, que se enriqueçam de boas obras, que sejam liberais e generosos, entesourando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a verdadeira vida” (1Tm 6.17-19).

Um lar em que há banquetes acompanhados de brigas, é um lar onde o Espírito Santo não se faz presente, logo não poderá haver paz e tranquilidade. No entanto, num lar em que o menu do dia se resume a um prato de arroz e feijão, porém com a presença do Senhor, com certeza haverá harmonia. Em síntese, a Bíblia mostra que da simplicidade pode-se extrair a paz... a verdadeira paz. 

Soli Deo Gloria!

A MESA DA COMUNHÃO



por  Delmo Fonseca |

“Fiel é Deus, o qual os chamou à comunhão
com seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.” – (1Co 1.9)


A Escritura nos ensina que a mesa é, por excelência, lugar de comunhão. A mesa é também um lugar de diálogo e reunião de toda a família. No entanto, o espírito deste mundo tem desagregado, isto é, desmembrado as famílias afastando-as da mesa da comunhão. De que maneira? Por meio de entretenimentos como televisão e internet, por exemplo.  Na hora da refeição, uns querem comer no quarto em frente ao computador; outros, no sofá da sala enquanto assistem às novelas. O salmista diz que o homem que teme ao Senhor desfruta, à roda da mesa, da comunhão com a sua esposa e filhos (Sl 128.3).

De outra sorte, encontramos no Evangelho de Mateus a menção de que “muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus” (Mt 8.11). Observamos, assim, que o propósito de Deus consiste em reunir seus filhos em torno de sua mesa.

Nesse sentido, ao celebrarmos a Ceia do Senhor, nos colocamos em comunhão a fim de nos lembrarmos da nova aliança firmada  pelo seu sangue na cruz.  “E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22.19,20).

Do ponto de vista reformado, “A Ceia do Senhor é um sacramento, no qual dando-se e recebendo-se pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte, e aqueles que participam dignamente, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, tornam-se participantes de seu corpo e sangue, com todas as suas bênçãos para seu alimento em graça.”

Ao consideramos a Ceia do Senhor como oportunidade de renovação contínua da nova aliança, podemos valorizar ainda mais a comunhão em torno da mesa. Por outro lado, à mesa com o Senhor, cada um pode fazer um autoexame e concluir o quanto se sente digno de partilhar o pão e o vinho a ser oferecido.  “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1Co 11.28,29).

Em hipótese alguma devemos negligenciar a mesa da comunhão, pois este é um lugar onde todo cristão deve estar. A Palavra de Deus nos garante que Jesus é verdadeiramente nossa comida (pão) e bebida (vinho). “Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1 Co 10.16,17).


Soli Deo Gloria!

A LÓGICA DE SARAH


por Delmo Fonseca |

Ainda que uma pessoa não saiba definir razoavelmente o que é lógica, no seu sentido filosófico, saberá identificar se determinada proposição faz sentido ou não. O fato é que mesmo antes de os gregos sistematizarem o raciocínio lógico, outras sociedades já possuíam critérios definidores do que era provável ou improvável. Suponha a seguinte situação:  qual a chance de uma mulher estéril, beirando os noventa anos, ficar grávida? Naturalmente, as chances são “quase” zero. O “quase” diz respeito ao outro lado da questão a ser analisada numa outra oportunidade. Antes, veja como a esposa de Abraão (ainda Abrão) reagiu ao saber da promessa de Deus feita  a seu marido: “Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos; tendo, porém, uma serva egípcia, por nome Agar, disse Sarai a Abrão: Eis que o SENHOR me tem impedido de dar à luz filhos; toma, pois, a minha serva, e assim me edificarei com filhos por meio dela. E Abrão anuiu ao conselho de Sarai” (Gn 16.1,2).

Sarai era esta mulher de quase noventa anos. Ao raciocinar sobre a probabilidade de Abrão vir a ser pai de uma grande descendência por seu intermédio, a conclusão a que chegou pareceu óbvia; “não terei condições, mas minha serva, bem mais jovem do que eu, poderá fazê-lo”. Sarai agiu racionalmente, porém sem fé. Da mesma maneira, em inúmeras ocasiões, seguimos a lógica de Sarai. Diante de situações em que uma solução alentadora se mostra improvável, usamos a lógica de Sarai. Diante dos zombadores e dos que torcem secretamente contra nós, como agimos? Segundo a lógica de Sarai. Em meio ao deserto, sob condições desfavoráveis, como reagimos? À maneira de Sarai.

O objetivo desta reflexão não é analisar as consequências do ato de Abrão, o que poderá ser feito em outro momento; antes, o propósito é mostrar como a razão alienada da vontade de Deus pode ser prejudicial. As Escrituras mostram que Abraão (não mais Abrão) aprendeu a lição, pois ao ser questionado por Isaque, filho da promessa, sobre a falta do cordeiro para o sacrifício, sua resposta foi taxativa: “Deus proverá”. Se partirmos da lógica de Sarai, a pergunta do jovem Isaque fazia todo o sentido: “Meu pai! Respondeu Abraão: Eis-me aqui, meu filho! Perguntou-lhe Isaque: Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? ” (Gn 22.7).

Viver pela fé é um desafio. Olhar para o horizonte e ter à sua frente somente as promessas de Deus é uma experiência que foge à lógica humana. Mas aprendemos com os heróis da fé que a vida com Deus é assim. Há inúmeros exemplos que nos confirmam esta verdade. Por seguir a lógica de Sarai, um sem números de crentes permanecem imaturos na fé. Estes buscam uma lógica, um sentido prático para estarem na igreja. Pensam que frequentar uma igreja os blinda de problemas, angústias, dissabores. Ao perceberem que mesmo na caminhada com Deus os desafios surgem, o ato seguinte é o abandono da comunhão.

Se ao menos prosseguissem crendo nas promessas de Deus, o que exige renúncia à lógica do mundo, conheceriam seu atributo Provedor (Jeová-Jireh). Assim aconteceu com Sara (não mais Sarai) conforme nos informa o autor da Carta aos Hebreus: “Pela fé, também, a própria Sara recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa” (Hb 11.11). A lógica de Sara, assim como a de Abraão, se alinhou com o propósito de Deus.

Para que a nossa lógica também se alinhe ao propósito do Pai, antes devemos conhecer suas promessas. Daí a necessidade de conhecermos o Evangelho, aplicá-lo em nossa vida cotidiana, submetermo-nos ao senhorio de Cristo. Estaremos com isso isentos de problemas? De forma alguma. Assim continuaríamos sob a influência da lógica de Sarai.  Porém ao crermos que “em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2Co 4.8,9), estaremos num novo patamar, vivendo a partir da mesma lógica de Sara.

Soli Deo Gloria!