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Mostrando postagens de Fevereiro, 2018

SOBREVIVENDO AO DESERTO

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por Pr. Delmo Fonseca | "Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho nos telhados" (Sl 102.6,7) A sensibilidade de Davi o capacitava a transformar o prosaico em poético. Explico: o aspecto prosaico da vida nos remete a experiências dolorosas. O povo hebreu pôde perceber este aspecto enquanto atravessava o deserto. O salmista, por sua vez, vivenciava duas situações preocupantes: sua enfermidade e a fragilidade da nação. Ainda assim, Davi encontrou na poesia a melhor maneira de expressar sua aflição: “Sou como o pelicano no deserto, como a coruja das ruínas. Não durmo e sou como o passarinho solitário nos telhados”. Ele recorre à metáfora, figura de linguagem que se firma como a ferramenta dos poetas. Não satisfeito, se compara a três aves: pelicano, coruja e pardal. Analisemos o pelicano: é uma ave extremamente adaptada ao ambiente marinho, se alimenta e vive praticamente toda a vida na água, retornando à terra ape

O MAL NÃO DESCANSA

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por Delmo Fonseca “... os filhos deste mundo são mais sagazes para com a sua geração do que os filhos da luz”.  Lc 16.8 Por que os bons, às vezes, se cansam de fazer o bem e os maus nunca se cansam de fazer o mal? Jesus afirma que os filhos deste mundo são mais astutos do que os filhos da luz. Os filhos deste mundo são aqueles que só se ocupam das coisas terrenas. Para eles a vida se resume a este mundo. E qual a consequência disso? Eles não temem a Deus porque não acreditam na existência de Deus. E por não acreditarem em Deus se sentem à vontade para fazerem tudo o que desejam visando sempre o próprio interesse. O escritor russo Fiódor Dostoiévsk destaca em um de suas obras que “se Deus não existisse tudo seria permitido”. E é assim que os filhos deste mundo vivem: como se Deus não existisse.  Por não crerem em Deus, sentem-se à vontade para praticar todo tipo de maldade: corrompem e se deixam corromper, matam, roubam, mentem, enganam o tempo todo, querem levar vanta

AS VOZES DO PASTOR - JOÃO CALVINO

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O MUNDO É UM ABISMO

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por Delmo Fonseca | Quando se pensa em consumismo, geralmente o que vem à baila é o entendimento de que este se resume a um modo de vida orientado por uma desenfreada aquisição de bens ou serviços, ainda que desnecessários. No entanto, o foco se direciona para o ser humano que consome e esquece-se que este mesmo ser humano é consumido. Eis o paradoxo: o ser humano é consumido na medida em que consome. A natureza humana, a exemplo da sanguessuga e suas filhas, se mostra cada vez mais insaciável, nada é o bastante. “A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem: Basta! A sepultura; a madre estéril; a terra que não se farta de água; e o fogo; nunca dizem: Basta! (Pv 30.15-16). Vivemos num tempo em que a expressão “basta” fora relegada a segundo plano; pois o que está em evidência é “mais, sempre mais”. Mais prazer, mais sapatos, mais crédito no cartão para consumir, mais adrenalina, mais sexo, mais festas, mais viage

DESERTO - WALTER BRUEGGEMANN

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UM LEÃO AO DERREDOR

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por Pr. Delmo Fonseca | Nas Escrituras encontramos um sem número de referências àquele que consideramos o rei dos animais. Constatamos que estas menções não são gratuitas, pois o leão sempre exerceu fascínio sobre o ser humano. O leão, como símbolo, aparece em brasões de reis, automóveis, escudos de times de futebol etc. Até mesmo uma famosa companhia cinematográfica faz uso da imagem de um leão rugindo em sua logomarca. Logo, não é de se estranhar a associação que o apóstolo Pedro faz entre o maioral dos felinos e o diabo. “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8). Por que o adversário de nossas almas é comparado a um leão? Ora, o “maioral dos demônios” (Mt 12.24), pela sua astúcia e estratagemas não poderia ser comparado à lebre ou ao esquilo, mas ao leão ou à serpente. Se não, vejamos: um leão, a exemplo de um grande estrategista, sempre se posiciona de maneira contrária ao vento.

TRÊS MARCAS - JOÃO CALVINO

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NELE FIRMAMOS NOSSOS PASSOS

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  por Delmo Fonseca | Ele não permitirá que teus pés vacilem; aquele que te guarda não se descuida. Sl 121.3 Pés vacilantes produzem um desequilíbrio no corpo. O andar claudicante, manco, denuncia esse desajuste e desarmonia. Há casos em que um simples passo, para quem sequer pode ficar de pé, já se faz motivo de muita alegria. A Bíblia narra no livro dos Atos dos Apóstolos (3.1-8), que “Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona. E era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. O qual, vendo a Pedro e a João que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola. E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós. E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa. E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita,

HÁ UM BÁLSAMO EM GILEADE

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por Delmo Fonseca |  “Acaso não há bálsamo em Gileade?  Ou não se acha lá médico?” – Jr 8.22. A história de José é conhecida. Ainda jovem fora vendido por seus irmãos a uma caravana de ismaelitas a caminho do Egito. Os comerciantes vinham de Gileade, e os camelos transportavam bálsamo e outros artigos (Gn 37.25).  Esse breve relato indica o quanto o bálsamo de Gileade era muito valorizado no Oriente Médio. Tal preciosidade se dava pelo fato de suas propriedades serem cosméticas e terapêuticas. A região de Gileade se caracterizava por suas montanhas ao leste do rio Jordão,  rica em florestas e pastagens, além do valioso bálsamo aromático, um líquido consistente que podia ser extraído das plantas, tornando-o exclusivo.  Quase sempre, peregrinos que seguiam para Jerusalém, encontravam em Gileade alívio e restauração para seus corpos cansados. O perfume exalado pelas plantas revigorava os viajantes. Este preâmbulo se faz necessário para que possamos entender o q

GRAÇA BARATA: JOIO EM MEIO AO TRIGO

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por Delmo Fonseca | “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” - Tito 2.11-12. Num texto anterior abordamos o fato de que o mal não descansa. E continuamos frisando que os agentes do mal, segundo a própria natureza, cumprem seu papel sem mostrar sinais de fadiga, enfado ou desânimo. Por outro lado, os que poderiam estar lutando em prol do evangelho, se esmorecem ante a primeira dificuldade. Em duas ocasiões, nas cartas destinadas aos gálatas e aos tessalonicenses, o apóstolo Paulo orientou: “E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos” (Gl 6.9), “Quanto a vocês, irmãos, nunca se cansem de fazer o bem” (2 Ts 3.13). Eis o paradoxo: os que são orientados a anunciar o evangelho, isto é, semearem trigo, correm o risco de abandonar a missão alegando cansaço ou falta de estímulo,

CURA-NOS, SENHOR, E SEREMOS CURADOS

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por Delmo Fonseca | É sabido que a Lei de Moisés proibia um leproso de se aproximar de qualquer pessoa saudável. Ainda assim, este deveria gritar de longe “imundo, imundo”, a fim de alertar a todos contra a contaminação. O que observamos no relato de Marcos (1.40) nos faz pensar profundamente no amor de Deus: “E aproximou-se dele um leproso que, rogando-lhe , e pondo-se de joelhos diante dele, lhe dizia: Se quiseres, podes purificar-me.”  O evangelista destaca a atitude de um leproso galileu, que ao ver Jesus, também viu a oportunidade de deixar para trás toda a dor e sofrimento. Ele sabia que não podia se aproximar de qualquer um, mas Jesus não era “qualquer um”. O seu conhecimento a respeito de Jesus o faz apresentar-se diante do Senhor “rogando-lhe, e pondo-se de joelhos”. A noção de que não tinha direito de exigir nada de Deus, mas aceitar sua vontade o faz confessar: “Se quiseres, podes purificar-me.” A partir deste contexto bíblico podemos constatar que a cura de

CORAÇÃO DE PEDRA, CORAÇÃO DE CARNE

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por Delmo Fonseca | “Outra parte caiu em solo rochoso, onde a terra era pouca…” – Mt 13.5 A parábola do semeador é uma das ricas ilustrações feitas por Jesus. A narrativa mostra que o Mestre conhecia muito bem o ofício de plantar e colher, além de também ser um exímio contador de histórias. Mas o que nos interessa em nosso texto é a parte em que a semente cai em solo rochoso. Há quase sempre uma camada de terra sobre esse tipo de solo, o que faz com que a semente lançada brote e se desenvolva por um pequeno intervalo de tempo. Ao se depararem com a camada rochosa as raízes se veem impedidas de continuarem sua trajetória. Elas não conseguem perfurar a rocha, logo não encontram água para sua sobrevivência. E a planta morre. Jesus nos ensina que a semente que cai em solo rochoso não vinga, embora cresça rapidamente. Em termos espirituais o que é um solo rochoso? Podemos dizer que é o coração de pedra. Sim, há corações duros como uma rocha. No entanto esses corações enganam,

AS ARMAS DA NOSSA MILÍCIA

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por Delmo Fonseca | “Nenhum soldado se deixa envolver pelos negócios da vida civil, já que deseja agradar aquele que o alistou” (2Tm 2.4 – NVI) A ‘katana’ é uma lendária espada japonesa, típica dos antigos samurais, caracterizada por ter uma lâmina curva, de um único fio com um protetor circular  e um cabo longo a fim de acomodar as  duas mãos. Aos olhos naturais nenhuma outra espada supera a beleza e eficiência de uma ‘katana’. Contudo, o que os olhos naturais não conseguem vislumbrar, muito menos discernir, é que existe outra espada ainda mais eficaz, que por ser viva, também “é mais cortante que qualquer espada de dois gumes; capaz de penetrar até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é sensível para perceber os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12 - NVI). Essa descrição trata-se, obviamente, da Palavra de Deus. Contra quem devemos manusear esta espada tão poderosa? Na Carta aos Efésios 6.12, o apóstolo Paulo é categórico ao afirmar que “

ARROZ, FEIJÃO E PAZ

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por Delmo Fonseca | “Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranquilidade do que uma casa onde há banquetes, e muitas brigas” (Pv 17.1 NVI). Algumas pessoas são estrategicamente hiperbólicas ao se expressarem, isto é, fazem uso do exagero para evidenciar um contraste. No referido provérbio de Salomão, percebemos claramente sua intenção em chamar a atenção para o fato de que a ostentação dificilmente tem a companhia da paz. A ostentação atrai olhares gananciosos, invejosos e todo o tipo de cobiça. Salomão, diferentemente de seu pai Davi, cresceu na opulência. Davi foi pastor de ovelhas, viveu uma vida simples. Já Salomão nasceu e cresceu num palácio. A mesa da refeição, decerto, longe de ser um espaço de comensalidade, representava para ele um espaço de disputa, competitividade, pois os demais irmãos também buscavam a atenção do pai. Salomão, nestas horas, ao refletir sobre o que é mais importante num lar, concluiu que a paz e a tranquilidade eram fundamentais, aind

A MESA DA COMUNHÃO

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por  Delmo Fonseca | “Fiel é Deus, o qual os chamou à comunhão com seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.” – (1Co 1.9) A Escritura nos ensina que a mesa é, por excelência, lugar de comunhão. A mesa é também um lugar de diálogo e reunião de toda a família. No entanto, o espírito deste mundo tem desagregado, isto é, desmembrado as famílias afastando-as da mesa da comunhão. De que maneira? Por meio de entretenimentos como televisão e internet, por exemplo.  Na hora da refeição, uns querem comer no quarto em frente ao computador; outros, no sofá da sala enquanto assistem às novelas. O salmista diz que o homem que teme ao Senhor desfruta, à roda da mesa, da comunhão com a sua esposa e filhos (Sl 128.3). De outra sorte, encontramos no Evangelho de Mateus a menção de que “muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus” (Mt 8.11). Observamos, assim, que o propósito de Deus consiste em reunir seus filhos em tor

A CUSTOMIZAÇÃO DA FÉ

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por  Delmo Fonseca | A nossa mania de aportuguesar termos estrangeiros sempre suscitou acaloradas discussões. De um lado há quem veja nesse fenômeno a possibilidade de enriquecimento da língua; de outro, não são poucos os que veem nesse estrangeirismo uma excessiva interferência em nossa cultura. Daí as comidas lights , as bebidas diets , os shows , os shoppings , os tickets , o marketing , o gospel , por exemplo. Nesse contexto pode-se observar o acréscimo da palavra customização (do inglês customization) ao nosso vocabulário. Seria muito mais simples usar os verbos adaptar, adequar ou até mesmo personalizar, mas customizar parece ser algo mais específico. Customizar é adequar alguma coisa de maneira única ao gosto da pessoa. Em tempos de individualismo exacerbado, nada pode parecer comum, isto é, pertencente a todos ou a muitos. A regra é ser singular, exclusivo. De carros a sapatos customiza-se de tudo, adequa-se ao gosto do freguês qualquer coisa. Mas em se tratan

É IMPOSSÍVEL SER FELIZ SOZINHO

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por Delmo Fonseca | “Vou te contar/Os olhos já não podem ver/Coisas que só o coração pode entender/Fundamental é mesmo o amor/É impossível ser feliz sozinho” – Tom Jobim Em sua canção “Wave”,  o maestro Tom Jobim acertou em cheio ao constatar a impossibilidade de se viver sozinho e ser feliz. Embora a felicidade total e irrestrita neste mundo não seja o objetivo de quem busca a Deus, pois o fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre, ainda que em meio a adversidades. No entanto, é incomparavelmente melhor quando se busca andar nos caminhos de Deus na companhia de quem se ama. Quando, no Éden, o Senhor adverte que “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18), o que se segue é que o próprio Criador acalenta o coração do homem com uma companheira que lhe fosse suficiente. Não se pode confundir solidão com solitude. A boa companhia espanta a solidão, a qual se configura como uma experiência angustiante. A boa companhia se torna um enlace,

AO CHEIRO DAS ÁGUAS

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por Delmo Fonseca | A dor nem sempre é mensurável. Aliás, quando a dor  se apresenta as palavras fogem, restando em muitos casos apenas gemidos. O mundo contemporâneo propõe uma solução artificial para o sofrimento quando incentiva o ser humano a buscar o prazer a qualquer preço. A receita apresentada pelo mundo para este estado perene de prazer, o que também é chamado de felicidade, consiste num olhar  do indivíduo apenas para si mesmo. Segundo o curso do mundo, desde os tempos de Aristóteles, o bem supremo do ser humano é a felicidade. Obviamente que a intenção do filósofo grego não era associar seu conceito de felicidade, pautado no aprimoramento das virtudes morais e intelectuais ao longo da vida, ao hedonismo, outra ideia grega que propunha o prazer como bem supremo. O mundo, no entanto, apregoa que ser feliz é viver prazerosamente, ou seja, quanto mais prazer, mais felicidade. Isto significa que não há espaço para a dor. Com isso segue-se a pergunta: é razoável que al