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Mostrando postagens de 2018

DE SONHOS E PROMESSAS

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por Delmo Fonseca  Há um verso da poeta chilena Gabriela Mistral, que resume o mote do nosso texto: “todos nós temos duas vidas: a com a qual sonhamos e a que somos obrigados a viver ...” Em outras palavras, nos situamos numa zona fronteiriça onde realidade e fantasia se tangenciam. Por que o simples ato de andar com os “pés no chão” é, para muitos, menos atraente do que andar com a “cabeça nas nuvens”? Ou melhor: por que muitos preferem a fantasia à realidade? A resposta é simples: a realidade nos mantêm despertos, enquanto a fantasia nos lança num estado sonambúlico. A realidade, sob vários aspectos, ora se apresenta árdua e hostil, ora amena e tranquila. Por ser árida na maioria das vezes, provoca em muitos o desejo de fuga. Daí o fato de que fugir da realidade é quase sempre a alternativa mais viável para quem prefere a leveza da fantasia. Até mesmo o salmista, diante de uma série de infortúnios, se viu tentado a escapar da realidade: “O meu coração está acelerado

POR QUE VOCÊ QUER SABER?

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  [marcia b. fonseca] “O homem é escravo do que fala e dono do que cala. Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João” [S. Freud] Sou neta de uma catalã que me ensinou grandes lições.   Uma delas merece destaque neste meu escrito. Lá vai: “quem muito quer saber, mexerico quer fazer”.   Não sei se você já passou pela experiencia de estar ao lado de alguém que te crava de perguntas. É muito desagradável. Até porque você não é obrigado a dividir com ninguém algo somente seu.   Ao longo destes anos lidando com pessoas, sei o quanto é difícil, muitas vezes dolorido, para alguém falar algo que lhe machuca, ou machucou no passado.   Feridas doem, às vezes sangram, nem sempre cicatrizam definitivamente.   Sem sombra de dúvida, quem muito pergunta é no mínimo insensível, algumas vezes indiscreto; outras, inconveniente.   Vale também analisarmos aqui os motivos de alguém querer saber tanto de um outro – saber e falar. Os “comentários” nunca são inocentes e é bom

TUDO É VAIDADE?

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[marcia b. fonseca] Fausto, de Goethe, centraliza o tema da insuficiência – não importa a experiência, ela é insuficiente.   Pobre homem que não crê na suficiência de Deus.   Flaubert em “A Tentação de Santo Antão” conta que o santo, após resistir às investidas do demônio, o faz desistir.   O penitente, de joelhos, agradece a Deus, em seguida se vangloria de ter finalmente se tornado um santo. O demônio volta - “fostes vaidoso”.     Grande questão humana: Vaidade.   O orgulho está inserido no contexto humano desde sua criação, quando Adão come da árvore do conhecimento.   Assim começa a humanidade.   De curiosidade em curiosidade, desobedecemos a Deus.   De vaidade em vaidade somos enredados às teias da fantasia por acreditar sermos mais do que somos.   “Como você caiu dos céus, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foi atirado à terra, você, que derrubava as nações!” (Is 14.12). O problema é sabermos a medida de nosso narcisismo.   Explico: uma vez um alun

IGREJA NÃO É UM CLUBE

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por    Vinicius Musselman* Muitos de nós pensamos em membresia de igreja da mesma forma que o mundo pensa em um clube, e isso é mundanismo na sua vida. Nós pensamos em membresia de igreja como algo opcional, como se alguém que fosse genuinamente cristão e maduro pudesse simplesmente se comprometer a não amar ninguém, a viver uma vida sem amor ao próximo. Quando Paulo escreve Efésios, em Efésios 1:15, ele reconhece a fé daqueles crentes por duas coisas: a fé que há entre vocês no Senhor Jesus e o amor para com todos os santos. Não fale pra mim que você ama Deus, que você não vê, se você não ama nem sua igreja que você vê. Não fale pra mim que você vai dar sua vida para Deus em serviço, se você não faz nada na sua igreja local. Membresia de igreja é um pacto que nós estabelecemos diante de Deus e dos nossos irmãos, de amar sacrificialmente como Cristo, aquela igreja local em particular. Ao nos desgastarmos em servi-los, ao suar em amá-los, é onde nós obedecemos

DEPRESSÃO ENTRE PASTORES

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por Marcia B. Fonseca “Quando sofremos de depressão, desejamos que nossos pregadores, líderes cristãos e conselheiros saibam mais a respeito da prisão dentro da qual sofremos antes de se proporem a falar sobre ela”.  (Zack, E., A Depressão de Spurgeon, SP: Fiel, 2015) A depressão revela-se como um fenômeno clínico que aponta para uma estrutura.  Medicamentos que visam tamponar, nem sempre dão conta dessa dor que desestrutura.  Não se pode saber o tamanho do sofrimento da alma humana.  O risco do suicídio aponta para a gravidade do caso.  Com a proposta de fazer uma reflexão sobre o aumento dos casos de melancolia entre pastores evangélicos, impõe-se uma pergunta e uma preocupação: como esse líder pode remediar o próprio sofrimento com a palavra?  Uma palavra que viabilize a mudança de posição moldada pela tristeza dos aspectos negativos da experiência vivenciada.  Podemos pensar então na depressão como uma retirada de cena.  Uma cena reflexo do real. Uma fu

A LÓGICA DE SARAH

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A LÓGICA DE SARA por Delmo Fonseca | Ainda que uma pessoa não saiba definir o que é Lógica no seu sentido estrito, poderá, no entanto, identificar se determinada proposição é ou não absurda. O fato é que mesmo antes de os gregos sistematizarem o raciocínio lógico, outras sociedades já possuíam critérios definidores do que era provável ou improvável. Analise a seguinte questão:  no nosso tempo, qual a chance de uma mulher engravidar aos noventa anos? Logicamente as chances são nulas, mesmo não sendo estéril. Mas esta foi a questão de Sara, mulher de Abraão. Ao raciocinar sobre a probabilidade de seu marido vir a ser pai de uma grande descendência por seu intermédio, a conclusão a que Sara chegou pareceu óbvia; “não terei condições, mas minha serva, bem mais jovem do que eu, poderá fazê-lo” (Gn 16.1,2). Semelhantemente, em inúmeras ocasiões, reagimos da mesma forma diante de adversidades cuja solução beira à impossibilidade. Optamos pelo "óbvio". O obje

FÉ E EQUILÍBRIO

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por Delmo Fonseca | "Ele não permitirá que teus pés vacilem;  aquele que te guarda não se descuida." Sl 121.3 Pés vacilantes produzem desequilíbrio no corpo. O andar manco denuncia esse desajuste.   Há casos em que um simples passo, para quem sequer pode ficar de pé,   já se faz motivo de muita alegria. A Bíblia narra no livro dos Atos dos Apóstolos (3.1-8), que “Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona.   E era trazido um homem que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. O qual, vendo a Pedro e a João que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola. E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós. E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa. E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o

ATÉ AQUI NOS AJUDOU O SENHOR

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por Delmo Fonseca | Tomou, então, Samuel uma pedra, e a pôs entre Mispa e Sem, e lhe chamou Ebenézer, e disse: Até aqui nos ajudou o SENHOR"  (1Sm 7:12) Grandes escritores se notabilizam por conseguirem dar vida a seus personagens, tornando-os tão “reais”, que parecem ter vida própria. A essa arte literária dá-se o nome de verossimilhança. Um dos mais renomados escritores ficcionais brasileiros, certa feita, disse por meio de uma  de suas criaturas: “Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida”. Posto isto, segue-se que refletir a respeito da existência, que precisa ser atravessada, tal como uma ponte ou um deserto, requer coragem, pois viver é extremamente perigoso. E só quem tem coragem encara de frente a realidade do existir, que em essência, é desafiadora. Daí o fato de muitos fugirem e buscarem refúgio nas drogas, no jogo, no álcool, na comida, no sexo, nas compras, na religiosidade, isto

BEM DITO!

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CONTRA OS ESPÍRITOS DE PORCO

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por Delmo Fonseca |   “A revolução se faz através do homem. Mas o homem tem que forjar,   dia a dia, o espírito revolucionário” - Che Guevara Em meados dos anos 80, a Legião Urbana já preconizava o que viria a ser uma sociedade desnorteada: “Somos os filhos da revolução / Somos burgueses sem religião / Somos o futuro da nação / Geração Coca-Cola” (in Geração Coca-Cola, de Dado Villa-Lobos e Renato Russo). Passados quase 30 anos, nos vemos diante de um assombroso tempo em que a solidez dos conceitos, das instituições e dos valores foi suplantada pela ideia de fluidez. O caráter impermanente, próprio do que é gasoso, a exemplo da Coca-Cola, passou a ser aplicado a quase todas as coisas. Subjacente a tudo isso, há um “espírito” dito revolucionário, que nas palavras de Condorcet (1743-1794) [i] , “é um espírito apto a produzir, a dirigir uma revolução feita em favor da liberdade”. E mais: “um homem revolucionário é aquele que se vincula aos princípios da revolução, q

O CRENTE “NUTELLA” E A PAIXÃO PELO TORTUOSO

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por Delmo Fonseca | Na primeira estrofe do “Poema de sete faces”, Drummond se vale do seu “eu-lírico” para dizer: “Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” Ao citar os versos do grande poeta itabirano no prelúdio desse texto, pretendo destacar apenas a predileção que muitos têm pela “esquerda”, ainda que desconheçam o verdadeiro sentido do “esquerdismo”.   Drummond sabia das coisas. Até mesmo o anjo conselheiro do seu “eu-lírico” pendia para a esquerda, o que necessariamente o aconselhava a seguir nesta direção: “Vai, Carlos! ser gauche na vida.”   O poeta se utiliza da palavra gauche - um estrangeirismo francês que corresponde a “esquerdo” em nosso português-, para delinear seu destino na vida.   Dessa maneira, ser de esquerda corresponde dialeticamente a pender-se para a “negação”, um dos lados da contradição. Todo esquerdista convicto sabe que a verdade pode ser atropelada e negada em nome da revoluç